No recém-lançado “Woody Allen – A Autobiografia” (Editora Globo), um dos maiores diretores vivos do cinema vai logo avisando nas primeiras páginas do livro: “Gente, vocês estão lendo a autobiografia de um iletrado misantrópico que adora gângsteres; um solitário chucro sem cultura que se sentava na frente de um espelho de três faces praticando com um maço de cartas para que pudesse esconder um ás de espadas, tornar o ato invisível de qualquer ângulo e faturar uns trocados”.

Sim, é o velho Allen que se vê com total desprezo, expõe suas neuroses e tenta desmitificar qualquer vestígio de intelectualidade, presente em várias de suas comédias. O livro percorre, com olhar sarcástico e impiedoso, uma trajetória que começou no momento que a sua mãe dá à luz a este “canalhinha”, que completou 85 anos de vida no dia 1º de dezembro, aos seus trabalhos mais recentes, sem deixar de passar pelas polêmicas no campo privado, como o suposto abuso sexual de um dos filhos.

Por sorte, o judeu menos judeu que conhecemos não puxou o pai. “Tendo herdado o DNA do meu pai para a desonestidade, eu logo estaria metido no pôquer, limpando o bolso dos desavisados, trapaceando, cortando o maço de cartas de forma enganadora e embolsando a mesada de todo o mundo”, alerta. Mas quis o destino que Allan Stewart Konigsberg, o seu nome de batismo, tomasse gosto pela arte, primeiramente pelos quadrinhos e, depois, pelos musicais da Metro, como “Cantando na Chuva”.

“(...) Não tenho vergonha de admitir: eu não gostava de ler. Diferentemente da minha irmã, que curtia, eu era um moleque preguiçoso que não sentia o menor prazer em terminar um livro. E por que eu teria? O rádio e os filmes eram tão mais empolgantes. Exigiam menos e eram mais vívidos”, escreve na autobiografia. Ele não saber o porquê de, ainda criança, de repente virar uma pessoa com problemas de autoestima, que consumiram anos de psicanalista, a quem se esforçava em enganar.

“Iletrado e desinteressado por questões acadêmicas, eu cresci como o protótipo do palerma que se senta diante da TV com uma cerveja na mão, assistindo empolgado a uma partida de futebol com a página central da Playboy presa com fita adesiva na parede, um bárbaro vestido de tweed, com um paletó com protetor de cotovelos”, descreve-se. É ou não é o perfil de tantos personagens que ele viveu na telona? Para quem conhece a filmografia de Allen, será transportado, a cada trecho, a sequências que ele magistralmente compôs em cinco décadas.

allen

Autobiografia está sendo lançada pela editora Globo

 

Acusação de abuso sexual e relação com a enteada

Em 1978, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” arrebatou quatro Oscar, incluindo melhor filme. Woody Allen não foi à cerimônia, preferindo tocar clarineta num clube de Nova York. Tocou o melhor blues que pôde naquela noite e foi para casa dormir. Só ficou sabendo da premiação no dia seguinte, ao abrir os jornais.

“Eu reagi como havia reagido ao assassinato de JFK. Pensei no assunto por um minuto, daí terminei a minha tigela de cereal, fui para a máquina de escrever e comecei a trabalhar”, escreve Allen. O que lhe prendia tanta atenção era o roteiro de “Interiores” e “não um filme que tinha feito um ano antes”.

O diretor diz que não gosta de olhar para trás. “Não guardo lembranças, fotos dos meus filmes, pôsteres, planilhas, nada. Para mim, quando acabou, está acabado”, afirma.

Ele também fala de sua relação com Mia Farrow, que mais tarde o acusaria de ter abusado sexualmente dos seus filhos. Allen ainda estava com ela quando iniciou um caso com Soon-Yi, filha adotiva de Mia e bem mais nova do que o diretor. 

A questão levou muitos atores a anunciarem que não trabalhariam mais com Allen. No livro, o cineasta dedica várias páginas para traçar um perfil psicológico doentio de Mia.