O casal Álvaro Apocalypse e Tereza Veloso partiu para a França, de onde voltaria, em 1970, com as sementes para a criação do Giramundo, o maior grupo de teatro de bonecos do país. “Quando eles foram para a França, eu tinha seis meses. Mamãe ganhou uma bolsa de estudos e eles resolveram ir, enquanto eu fiquei com a minha avó paterna. Fiquei um ano na casa dela”, lembra Beatriz Apocalypse, responsável hoje por dar continuidade a um trabalho premiado e elogiado que está completando cinco décadas.

Com 36 espetáculos realizados e cerca de 1.800 bonecos em seu acervo, o Giramundo incorpora elementos tecnológicos, mas sem perder a essência do teatro clássico. “O mundo está mudando e temos que caminhar de acordo com estas tecnologias. O boneco encanta, de toda forma”, registra. O grupo já participou de filmes (“A Dança dos Bonecos”), novelas (“Pega Pega”) e séries (“Hoje é Dia de Maria”), mas este trânsito por outras formas de arte nunca os empolgou a ponto de se lançarem em projetos próprios. “Tivemos experiências bacanas, mas não trocamos nada pelo palco”, avisa Beatriz.

Você e o Giramundo têm praticamente a mesma idade. Como foi crescer neste universo lúdicos do teatro de bonecos?
A infância foi uma diversão completa. A gente morava em Lagoa Santa nesta época, com papai e mamãe dando aulas na UFMG. Durante a semana, era uma vida relativamente normal. Nos fins de semana, chegavam os artistas, os amigos, os primos, os vizinhos... A gente fazia a hora do teatro, sempre aos domingos à tarde. Víamos os bonecos sendo construídos. Meus pais incentivavam as crianças a brincar com estes trabalhos manuais. Nunca tive Barbie. Mamãe fazia uns bonequinhos de madeira e, às vezes, ela me deixava colar os cabelos, os olhinhos. Só tive uma boneca comprada, que ganhei de Natal. Naquela época não tinha esta diversidade de hoje, mas não pedíamos. No quintal de casa, havia uma casinha que papai construiu. Tinha tijolinho, janela, fogão a lenha... Além disso, criávamos muitos bichos, estávamos sempre perto dos animais. Eram cachorro, galinha, cabra... Papai fazia umas armadilhas bem legais para pegar os ovos. As galinhas botavam os ovos e já tinha um caninho por onde eles desciam. Todo mundo ia para o galinheiro para ver quantos ovos havia.

O Giramundo começou com a proposta de fazer animação?
Era uma proposta do papai. Ele trabalhava com publicidade e gostava muito de desenhar. Estava tentando fazer animação, com desenho quadro a quadro. Mas quando foi acompanhar minha mãe na França, ele teve contato com o teatro de bonecos. E voltou quente para começar o trabalho no Brasil. Hoje a gente já trabalha com animação, mas para os espetáculos, exibindo na tela de projeção. Chamamos de vídeo-animação.

“Falavam que meu berço ficava do lado da oficina e que papai amarrava um pedacinho de boneco e que mamãe deixava um móbile bem colorido. Cada hora um me pegava”


O primeiro espetáculo do Giramundo foi a adaptação do clássico “A Bela Adormecida”. Como se deu a escolha dos temas ao longo destas cinco décadas? “Cobra Norato” foi o grande marco do grupo?
Os temas são bem variados. Quando a gente escolhe um texto, vamos ver como ele combina com os bonecos. Vamos de um conto clássico, como “A Bela Adormecida” e “Pedro e o Lobo”, aos textos adultos. Estes vieram em 1979, com “Cobra Norato”, seguido por “As Relações Naturais”, de 1985, e “A Flauta Mágica”, em 1991. “Cobra Norato” foi um marco, o mais premiado. O Giramundo despontou a partir dele, passando por vários festivais no Brasil. Foi a primeira vez que o grupo trabalhou na caixa preta, em que o marionetista está todo vestido de preto, com o boneco à frente apenas.


A história do grupo pode ser dividida em antes e depois da UFMG, que recebeu os bonecos e as cenografias por quase duas décadas?
Todo mês de julho o Giramundo ia para o festival de inverno de Ouro Preto (idealizado, entre outros, por Álvaro Apocalypse e produzido pela UFMG até 1979) e ali era construído um espetáculo. Quando voltávamos, a gente continuava o trabalho, no sentido de melhorar o texto, a música, a cenografia. Depois da UFMG, passamos a ter contato com as leis de incentivo municipais, estaduais e federais. Foi quando conseguimos criar um plano de remontagem de espetáculos, colocando em atividade os trabalhos antigos, além dos novos. Na época também se tinha projeto de manutenção, que ajudava a gente a pagar as contas e a manter o grupo.

O desligamento da UFMG representou um momento muito delicado para o Giramundo, não é verdade?
Sim, papai ficou muito sentido de sair da universidade, onde tinha começado. Houve a troca de reitora e a nova achou melhor desligar o grupo, no final de 1989. Conseguimos alugar um espaço, com papai pagando. Sobrevivemos por um tempo graças às leis de incentivo. No ano de 2000, a gente abriu o teatro na Avenida Silviano Brandão. Era um meio também de a gente ter um repertório ativo durante todo o ano. Ficávamos abertos de quinta a domingo, com espetáculos infantis e adultos. Foi assim que conseguimos sobreviver. O teatro não vingou depois porque não tivemos apoio nenhum. Estávamos com dificuldades de manter um lugar para guardar os bonecos e papai deu prioridade para o museu, para salvar o acervo.

GIRAMUNDO

Grupo criou cerca de 1.800 bonecos para espetáculos próprios e outras atividades

O museu completa, no próximo ano, duas décadas. Esta data será celebrada de alguma forma?
Nós estamos pensando primeiro em catalogar o acervo. Era algo que iríamos fazer este ano, mas tivemos que deixar para depois por causa da Covid. Esperamos retomar no início de 2021 e depois reabrir o museu. Estamos falando de aproximadamente 1.800 bonecos. Lá não cabem todos. Os que usamos mais ficam guardados numa caixa. Este ano foi realmente para a gente parar e pensar como vão acontecer estas exposições e visitações. O museu estava para ser reformado, para receber cadeirantes. Temos uma exposição prevista, para abril do ano que vem, no Marista Hall, mas não batemos o martelo ainda.

“O Pirotécnico Zacarias” está sendo totalmente transformado em vídeo agora. Como foi a introdução destes elementos mais tecnológicos nas produções do Giramundo?
Era uma pesquisa que já vínhamos fazendo desde 2005, quando fizemos o espetáculo “Pinóquio”. Desde então todo espetáculo do Giramundo passou a contar com animações e o que chamamos de vídeos cenários. Agora estamos transpondo tudo para este tipo de mídia. É um caminho que não tem mais volta. O mundo está mudando e temos que caminhar de acordo com estas tecnologias. O boneco encanta, de toda forma. O melhor para nós é fazer espetáculos com o público perto.

“Manipular (bonecos) é muito difícil, um aprendizado a longo prazo. Tem que estudar muito os movimentos e a interpretação dos personagens, além de estar bem fisicamente”


Foi natural para você assumir a coordenação do grupo após a saída dele de cena? Você chegou a ter outras formações?
Não tenho formação em outras áreas, não. Eu fiz Belas Artes, mas larguei. Na época, o Giramundo estava com muito espetáculo, com muita viagem, e papai me disse: “aqui você vai aprender muito, como desenho, pintura, modelagem... Pensei muito em lhe falar isso, mas é melhor você ficar aqui no Giramundo e trancar esta matrícula”. Eu já montava cenário, desenhava e ele me ensinava a fazer projeto técnico, enquanto minha mãe me mostrava como fazer croquis. Sandra Bianchi me ensinava como misturar as tintas. Aprendi também costura, marcenaria... Minha faculdade foi o Giramundo. Nos espetáculos, eu comecei como manipuladora e depois, como papai não tinha muita paciência para ensaio, já que ele fazia muita coisa, eu peguei esta parte de assistência de direção. Como os ensaios eram no final do dia, ele já estava morto de cansaço. Ele falava o que queria e eu adiantava para ele. Quando a cena já estava pronta, eu o chamava. Quando mamãe e papai faleceram, em 2003, eu passei a desenhar os bonecos, criar personagens e projetar, além de dirigir.

O seu pai formou muitos profissionais nesta área. Como era trabalhar com ele?
Papai era terrível. Por ser da família e estar ali manipulando, eu tinha que ser perfeita. Tinha que chegar antes de todo mundo, ser a mais concentrada... Ele cobrava muito isso de mim, porque, na cabeça dele, tínhamos que dar o exemplo. Tinha que ser muito profissional até para as pessoas não reclamarem que eu estava ali só por ser filha. Tinha que dar 100%.