O vocabulário do cinema, que costumava privilegiar superlativos – equipes grandes, orçamento milionário, diversas locações, entre outros – como sinônimo de pujança, teve que ser redefinido em tempos de pandemia. Menos virou mais. Quem conseguiu produzir filmes nos últimos meses teve que buscar outras formas de linguagem.

“Nossa preocupação maior foi achar obras que fizessem o uso inteligente da linguagem audiovisual, especificamente na internet. Curiosamente, nenhum destes filmes tematizam a pandemia”, afirma Pedro Butcher, um dos curadores da Mostra CineBH, com início hoje. Ele selecionou seis títulos que partem, em boa parte, de experiências do teatro, mescladas ao audiovisual e ao meio virtual.

Butcher cita como exemplo o trabalho que será apresentado na abertura, “12 Pessoas com Raiva”, dirigido por Juracy de Oliveira e realizado pelo Pandêmica Coletivo Temporário de Encenação. “É uma peça/filme que tem uma sacada genial ao adaptar o texto de ‘Doze Homens e uma Sentença’ para esta era da internet, com o júri se reunindo pelo Zoom”, destaca.

No filme americano de 1957, 12 jurados se reúnem numa sala para definir um veredicto, que parecia simples à princípio. Com a discussão provocada por um voto contrário à condenação, a personalidade de cada um deles aflora. A adaptação foi facilidade pelo fato de o original se passar basicamente num único cenário.

“Todas estas obras são, de certa forma, também filmes, que estão lidando com a questão do ao vivo”, analisa Butcher. Além de “12 Pessoas com Raiva”, participam da mostra temática “Museu dos Meninos – Arqueologias do Futuro”, “Coisas Úteis e Agradáveis”, “Navalha da Carne Negra”, “Canção das Filhas das Águas” e “República”. Somente “Navalha” foi feito antes da pandemia.

O fato de usarem ferramentas como celulares já não incomoda os cinéfilos, apesar de o cinema usufruir de certo status. Butcher assinala que a invenção e a qualidade independem da tecnologia. “Essa é a noção do cinema impuro, expandido, que a gente trouxe do André Bazin (teórico francês)”, pondera o curador.

Virtual

Até segunda-feira, a Mostra CineBH apresentará 54 filmes nacionais e internacionais (14 deles longas-metragens) em pré-estreias e mostras temáticas, além de 20 debates, painéis e rodas de conversa, três masterclasses, três laboratórios de roteiro, uma oficina, um estudo de caso e mais de 200 encontros de coprodução. 

A programação se dará no formato on-line, pelo site do festival. Butcher acredita que, mesmo após a pandemia, o formato híbrido (presencial e virtual) prevalecerá entre os festivais. “Nem que seja por uma questão de acessibilidade. A sala física é uma realidade dos grandes centros urbanos. Com o on-line, muita gente passou a ter acesso a filmes e debates”.