Na voz de Zeca Baleiro, a música “Você Só Pensa em Grana” destaca em uma de suas estrofes que “poeta bom é poeta morto”. Se levarmos em conta que o Dia Nacional da Poesia, celebrado em 31 de outubro, ganhou esta data em razão do escritor mineiro Carlos Drummond de Andrade, a frase faz algum sentido.

Curiosamente, esse mesmo Drummond, com um poema publicado em 1977, despertou em Camila Dió a paixão pelo gênero literário aos 11 anos, comprovando que a poesia não é coisa de “velho”, arregimentando novos e bons poetas. Hoje aos 30 anos, ela é apontada como uma das promessas mineiras neste campo.

“Comecei a escrever na escola, após uma professora pedir para ler o poema ‘A Palavra Mágica’. Passei a escrever sobre tudo o que acontecia à minha volta. O dever do poeta é captar esta vibração e levar para a palavra. Pode até ser sobre política”, registra Camila, que reside em Contagem, na Região Metropolitana de BH.

Em abril, a poetisa lançou o seu primeiro livro, cujo título expressa bem os interesses dela na poesia: “Não Escrevo Poemas de Amor” (editora Penalux). “Sou a pessoa mais romântica que conheço. Só que eu acho que o amor não cabe em palavras”, explica, ao ir de encontro a um dos maiores chavões da poesia.

Apesar de usar as redes sociais para divulgar o seu trabalho, ela fez questão de reunir os poemas numa publicação física. “Como leitora, eu gosto do livro físico. Tê-lo na mão é outra coisa”, assinala. Ela já prepara um segundo livro, desta vez com textos em forma de haicais (poesias curtas de origem japonesa).

Quem assina a “orelha” de “Não Escrevo Poemas de Amor” é Ana Elisa Ribeiro,  que recentemente teve o seu livro “Dicionário de Imprecisões” anunciado entre os finalistas do Prêmio Jabuti. “Minas sempre teve gente boa. A questão agora é que há maior visibilidade, com as redes sociais”, assinala.

Ela sublinha que outro fator a favorecer novas safras de poetas é a aposta de editoras pequenas neste segmento. “A maioria absoluta dos novos saem por estas editoras artesanais ou independentes, como gostam de chamar. É uma inversão engraçada: quem tem menos dinheiro é que aposta mais”.

Terapia
Helena Ferreira lançou o seu primeiro livro – “Um Poema para Helena” (Crivo Editorial) aos 18 anos. Ela já convivia com a poesia desde os nove anos, após ler um texto de Mário Quintana na escola. Durante muito tempo, teve no Facebook a sua principal “editora”, chegando a ser seguida por um milhão de pessoas.

"Li Mário Quintana e fiquei apaixonada. Decidi que era aquilo que queria fazer da minha vida. Desde então, não consigo fazer outra coisa a não ser ler e escrever”, afirma Helena, que, aos 24, não tem dúvidas de como a poesia transformou o seu dia a dia, tirando-a de várias “enrascadas”, como mesmo diz.

Ela lembra que teve problemas de depressão e ansiedade, com a escreve se tornando a melhor terapia. “A arte salva as pessoas, principalmente os jovens. Ela me livrou de muita coisa ruim. No lugar de estar na balada, eu estava no meu quarto, lendo e produzindo. Não que seja ruim (estar na balada), mas é preciso equilíbrio”.

Hoje com 25 mil seguidores no Instagram, Helena Ferreira desistiu de sua página no Facebook após ela ter sido várias vezes denunciada por haters e retirada do ar. “Não havia conteúdo impróprio. O que ocorria é que buscava abrir os olhos das pessoas que estavam e ainda estão erradas na nossa sociedade”.

Relacionamento abusivo, depressão e suicídio viraram temas de muitos de seus textos. “Eu pegava isso e tentava pegar a raiz disso e passar para uma forma mais leve. A poesia tem essa leveza, em que as pessoas conseguem ler um assunto mais pesado de maneira tranquila”, detalha a autora.

Para ela, é importante o escritor falar sobre tudo, para alcançar uma maior diversidade de leitores. Em seu segundo livro de poesias, “Para Ela”, publicado em 2017, Helena escreveu textos voltados para o universo feminino, “buscando desconstruir o machismo que as mulheres crescem com ele”.

Ela irá lançar, no próximo mês, uma nova edição de “Um Poema para Helena”, em que ela retirou alguns textos e acrescentou outros. “Eles têm mais a ver com o meu momento atual. Passei por uma grande transição agora, principalmente com a pandemia, e passei a focar nas coisas que realmente importam”.  

A necessidade de lançar um livro físico, segundo Helena, é uma forma de aproximar mais o leitor. “Quando você compra um livro, você dá mais valor. Não são simples palavras. Elas foram escritas com alma. Dividir isso com outras pessoas é muito sério, pelo menos para mim, como autora”, analisa.

CRIVO

Capa do livro de Helena Ferreira que ganhará nova edição no próximo mês

Belo Horizonte tem editoras especializadas no lançamento de livros de poetas jovens

A Crivo é uma referência em Minas Gerais no lançamento de jovens poetas. Desde quando abriu as portas, em 2012, a editora tem investido continuadamente em novos nomes, enfatizando um lado social ao mirar também em autores de diferentes lugares e extratos de Belo Horizonte.

“Quando começamos, a gente não imaginava tudo isso que foi construído ao longo dos anos. Lançamos uma antologia de poesia e prosa e, desde então, passamos a lançar muita poesia espontaneamente”, destaca Lucas Maroca, um dos três sócios da Crivo Editorial.

Logo ele percebeu que a poesia era uma vocação da editora, já tendo lançado entre 30 e 40 títulos de jovens autores da cidade. “A poesia não deixa de ser um desafio, embora a gente acredite muito nela”, registra Maroca.

A editora desenvolve um projeto chamado “Poesia Incrível”, que seleciona originais e faz lançamentos com distribuição gratuitas dos exemplares. As duas primeiras edições tiveram o patrocínio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Agora, o projeto foi aprovado no Fundo Municipal de Cultura.

“É uma coisa para a cidade de Belo Horizonte. A gente recebe 80 originais. Pode parecer pouco, mas como são apenas de poesia, de jovens autores que nunca publicaram e que vivem na cidade, é um número considerável”, avalia Maroca.

Força editorial
Segundo  o editor, BH está vivendo um momento muito propício, com um grande número de pessoas publicando seus trabalhos principalmente em editoras independentes. “Você tem a Moinhos, a Impressões de Minas, a Relicário.... uma força editorial muito emergente”.

Sobre o retorno financeiro das publicações, ele salienta que é uma questão complexa, que depende muito do tipo de autor. “Alguns deles têm público muito fidelizado, uma rede que recebe o livro quase como uma obra sagrada. E há outros que têm um público mais nichado”.