Em “A Verdadeira História de Ned Kelly”, disponível a partir de hoje nas plataformas digitais, o diretor Justin Kurzel comprova a predileção por personagens que transitam entre a loucura e a razão a partir de um cenário sujo e uma fotografia expressionista, que estampam uma realidade propícia ao descontrole e à sanguinolência.

Foi assim como “Macbeth”, adaptação da obra homônima de William Shakespeare, em que Kurzel evidencia um rei atormentado, preso a um passado do qual não pode se livrar. Assim como a história do rei escocês, Ned Kelly não é mostrado como vítima, mas sim como um sintoma de uma sociedade pautada pelo caos.

Começamos a história já em meio à tormenta, em que fica claro que o garoto Kelly não terá escolhas, sempre tragado por uma sina familiar. A relação dele com a mãe é tão doentia quanto a de Macbeth e a esposa gananciosa. Os equívocos resultantes desta junção jamais serão apagados, criando uma panela de pressão social.

O fora-da-lei irlandês já foi tema de vários filmes e séries, tendo sido interpretado por nomes como Mick Jagger e Heath Ledger. Nesta versão, quem o interpreta é George MacKay, um dos protagonistas de “1917”

Ned se tornou um lendário criminoso na Austrália do fim do século XIX, com proezas que, como o crédito inicial do filme faz questão de enfatizar, uma ficção dificilmente alcançará. O que talvez explique muitas das escolhas de Kurzel, como a atmosfera de filme de horror, endossada por cenários bizarros e posições de câmera angulosas.

Ninguém parece normal àquela realidade, num lugar ermo da Austrália para onde vão exilados irlandeses e policiais corruptos, que vivem uma falsa harmonia. A primeira cena já mostra o pequeno Ned assistindo a mãe fazendo sexo oral num sargento, com o pai próximo à casa e num estado de progressiva loucura.

Em “Macbeth”, as relações familiares também estão longe de serem saudáveis. O amor e o sexo ganham significados doentios. Como neste filme, “Ned Kelly” também vai discutir questões de linhagem e hereditariedade, de uma maneira menos nobre, por assim dizer. Ser um Kelly se torna uma maldição.

A partir deste viés, é possível criar empatia pelo personagem. Mesmo no momento em que vira criminoso e monta uma gangue, o mundo que o cerca parece mais nocivo e desalentador. Os obscuros labirintos da mente humana são explorados como nos dramas de Shakespeare, em que o homem surge fadado ao fracasso.