Assim como o coronavírus, a gripe espanhola pegou o mundo de surpresa, matando 50 milhões de pessoas, paralisando a economia e levando o distanciamento social àqueles que se prepararam para a doença viral – naquele tempo, governos negacionistas também contribuíram para aumentar negativamente as estatísticas. Após 102 anos da primeira pandemia, os equívocos são muito semelhantes.

“Acho que involuímos. Em 1918, a primeira reação dos diferentes presidentes de Estado, como eram chamados, foi negar ou criar bodes expiatórios, mas depois aderiram às diretrizes da ciência. Muito diferente do que a gente vê hoje, com governos contrários aos protocolos da Organização Mundial da Saúde”, compara Lilia Schwarcz, autora do livro “A Bailarina da Morte – a Gripe Espanhola no Brasil”.

Escrita ao lado da historiadora e cientista política mineira Heloisa Starling, a publicação será lançada amanhã, às 18h, dentro do projeto “Sempre um Papo”, com transmissão ao vivo pelas redes sociais. Professora no Departamento de Antropologia da USP e no Global Scholar na Universidade de Princeton, nos EUA, Lilia resume em três palavras a maior prova da regressão da população em relação à nova pandemia: sal de quinino.

“A maior confluência entre as duas pandemias é o uso do pensamento mágico. Em 1918, tínhamos o sal de quinino, que era utilizado contra a malária e foi usado contra a gripe espanhola. Já na época, ele não foi recomendado pelas autoridades médicas. Hoje é a cloroquina, que tem a mesma composição do sal de quinino e é indicada para malária. Esta é uma triste e impressionante coincidência”, assinala Lilia.

A autora salienta que, historicamente, grandes pandemias são politizadas, geralmente com quem está na situação optando pela negação, com o objetivo de se perpetuar no poder; e no caso da oposição, a arma é a crítica. “Em 1918, os políticos de Salvador decretaram que não havia pandemia na cidade, porque não queriam que ela ficasse conhecida como porto sujo, como chamavam os portos contaminados na época”, exemplifica.

Em Recife, destaca Lilia, chegaram a inventar um outro nome para a doença, que misturava latim com grego, para evitar a referência à gripe espanhola. “Deram o nome de tanatomorbia, que quer dizer ‘doença que mata’. Estavam claramente manipulando dados para não mostrar que Recife estava contaminada. Já no Rio Grande do Sul, simplesmente adiaram a comunicação sobre a doença para evitar que ela influísse nas eleições locais”.

Em Belo Horizonte, por sua vez, apesar de terem negado num primeiro momentos, os governantes voltaram atrás e determinaram a adesão aos protocolos. “A cidade teve uma atitude mais cidadã, mais republicana. De uma forma geral, em 1918, o Brasil foi mais solidário, agindo mais como coletividade. Diferentemente da crise atual, em que cada um só pensa no seu território”, lamenta.