Neste momento em que é produzido uma grande quantidade de lives durante a pandemia, como forma de entretenimento e necessidade de prosseguimento de uma certa rotina (as aulas escolares, por exemplo), muitos não se dão conta de que todo esse material disponibilizado em plataformas digitais e redes sociais tem uma mesma origem, como imagens em movimento.

“Tudo virou audiovisual”, assinala Raquel Hallak, coordenadora-geral da 15º edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), que terá início nesta quinta (3) com uma programação completamente on-line. A nova realidade provocada pela doença viral, pontuada por múltiplas telas, é o cerne do evento. “Estamos propondo uma reflexão importante sobre o significado das imagens, das telas e das produções em nossas vidas”.

Com o tema “Cinema de Todas as Telas”, o objetivo da CineOP é pensar sobre o que representa esta multiplicação de telas para o presente e para o futuro do audiovisual brasileiro, discutindo as formas de difusão, a importância da memória, a melhor maneira de preservar este material e, fundamentalmente, de como precisamos nos reinventar para manter a nossa existência.

Além de debates e oficinas, a CineOP exibirá, até sete de setembro, 102 filmes (14 longas, 12 médias e 76 curtas), de 15 estados. Serão disponibilizados no site da mostra, de forma gratuita

O próprio festival é um exemplo de transformação compulsória, ao ter que passar todo o seu conteúdo para o universo digital, após 14 anos cumprindo o papel de conectar o seu público com a geografia e a cultura particular da cidade histórica mineira. “Creio que fomos o primeiro festival brasileiro a assumir que o evento teria uma versão on-line”, recorda Raquel, que já tinha 80% da CineOP pronta quando a pandemia começou.

“Tivemos que nos readequar, estabelecendo um novo modelo. E era preciso que todo mundo tivesse um entendimento disso num curto espaço de tempo. Para se ter uma ideia, quando começamos a falar disso não existia live”, destaca a coordenadora, que resolveu mudar a chave em abril. A Mostra estava prevista para junho, mas foi adiada para setembro, para dar tempo de realizar as mudanças necessárias.

A curadoria encarou a pandemia de frente, inserindo-a nas discussões. “Buscamos sim esse momento que é histórico para a humanidade e que a gente não pode passar despercebido, no sentido de registrá-lo em nossa memória com imagens, pensamentos e reflexões, sobre o que esta pandemia está provocando e irá provocar de mudanças”, observa Raquel.

Ela sublinha a dificuldade em fazer com que as empresas investidoras entendessem que um evento digital poderia proporcionar maior visibilidade e alcance, num momento em que o país não falava de outra coisa a não ser pandemia. “Todo mundo estava preocupado em realmente salvar vidas. Por outro lado, quem estava dentro de casa, estava consumindo cultura. Foi o que mais consumimos nestes meses. É uma dicotomia”, analisa.

Para Raquel, outro desafio foi não se contentar em simplesmente montar um catálogo de filmes para ficar disponível na internet. “Queríamos que, para quem já conhecesse o evento, sentisse ali todo o rigor e critério da curadoria. A única vantagem do digital é que o evento estará aberto para quem não conhece ter a oportunidade de descobrir. Já que ele estará aberto para o mundo”.