Nem é preciso Donald Trump ser citado em “Space Force”, nova série da Netflix – protagonizada e produzida por Steve Carell – que já está entre as mais assistidas da plataforma de streaming. Quem conhece um pouco da política americana logo irá perceber o alto teor satírico dirigido ao chefe da Casa Branca.
 
Ainda mais que a série leva o mesmo nome do atual programa espacial dos EUA, criado em 2018 para ampliar o domínio ianque no plano sideral, já que adversários como Rússia, China e Coreia do Norte estariam, segundo a cúpula de Trump, a interromper os satélites de navegação e comunicação americanos.
 
Não por acaso, um dos momentos mais engraçados da série acontece quando a China inutiliza um satélite e, para tentar recuperá-lo, a Força Espacial treina um macaco – esquecido numa nave nas proximidades – para realizar a missão, contrariando os conselhos do cientista-chefe da base, vivido por John Malkovich.
 
Um dos pilares do programa é essa briga entre a razão (personificada no cientista e em seus auxiliares) e o militarismo, como se fossem duas coisas completamente opostas. Nesta receita, as decisões do general Naird (Carell) são baseadas na exposição da força e da disciplina – na maioria das vezes, com resultados pífios.
 
Os demais generais, que vivem brigando entre si como se fossem crianças, fazem a cartilha Trump: quando são ameaçados ou não conseguem resolver um problema, partem para a baixaria. Naird é o melhorzinho entre eles. Durante os dez capítulos de “Space Force”, ele passará por uma nítida “evolução”.
 
A realização desta curva do personagem, curiosamente, é o que mais prejudica a narrativa, pois o humor extraído da teimosia do general é deixado de lado em prol do pai afetuoso e da honradez. A comicidade, por sinal, perde muito de seu efeito por se recusar à sátira mais escrachada, como em “Aperte os Cintos, o Piloto Sumiu!” e “Top Secret”.
 
Os episódios são curtos e, como cada um deles é dedicado a um estágio do desenvolvimento do capenga programa espacial, histórias com grande potencial acabam não se fechando bem. O momento em que Naird permanece uma semana na base lunar, por exemplo, poderia ter explorado melhor as situações. 
 
Para quem gosta de ficção-científica, no episódio em que o general corre dentro da base lunar, logo vai notar a referência à cena semelhante ocorrida em “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968), clássico do gênero
 
A série também não chega bem ao último capítulo, encerrando-se de forma abrupta e anticlimática, forçando uma segunda temporada, que a Netflix não confirmou ainda se haverá.