A obsessão de Carlos Heitor Cony com a ideia de assassinato dos presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek pela ditadura militar era tão grande que, ao vender toda a sua obra para a editora Nova Fronteira, o escritor não pensou duas vezes: no lugar de fazer uma versão ampliada de “O Beijo da Morte”, lançada em 2003, ele partiu, ao lado da mineira Anna Lee, para um nova publicação.

“Nos últimos 15 anos, muitas coisas aconteceram, como a exumação do corpo de Jango e a abertura dos arquivos sobre o período por outros países. O original ficou ‘ensanduichado’, após acrescentarmos uma primeira e terceira partes”, registra Anna, que lançará “Operação Condor” hoje, às 19h, no Café com Letras. 

Com o falecimento de Cony em janeiro de 2018, Anna admite que concluir o trabalho não foi fácil. “Foi como perder o meu pai literário. Fiquei paralisada por algum tempo, pois era só pegar nos documentos que juntamos e lembrar dele, por causa do cheiro do charuto que ainda estava neles”, lembra. Cony tinha estruturado com ela a espinha dorsal da obra, além de ter feito a revisão do livro anterior.

“Conversamos e acertamos tudo entre nós. Nada foi feito fora do acordado com ele”, destaca a autora, que não carregava a mesma obsessão de Cony pelo tema. Nascida em 1966, ela não assistiu ao endurecimento do regime militar, mas ficou intrigada por esta parte da história virar um “buraco negro”, tanto nas salas de aula quanto dentro de casa – o golpe de 1964 foi apoiado pela classe média.

A Operação Condor que dá título ao segundo livro é uma referência à aliança político-militar entre os vários regimes militares da América do Sul. Embora Anne acredite que nunca poderá provar com todas as letras que Jango e JK foram assassinados, não são poucos os fatos que aumentam a probabilidade de ambos terem sido eliminados por incomodarem o governo brasileiro.

“Documentos mostram que o Itamaraty teve uma ligação muito profunda com a ditadura. Dois meses antes de Jango morrer, ele esteve em Londres e Roberto Campos, embaixador do Brasil no país, teve que ‘tomar conta’ dele. Se Jango não tinha importância política na época, por que teve que ficar vigiando-o?”, assinala.

João Goulart, último presidente democrático do Brasil antes do golpe, faleceu em 6 de dezembro de 1976, de ataque cardíaco. Kubitschek morreu em agosto de 1976, de acidente automobilístico. Neste mesmo período, faleceu Carlos Lacerda, outro importante político contrário ao regime, em maio de 1977, de ataque cardíaco. Menos de um ano separaram estas mortes.

SERVIÇO
Lançamento de “Operação Condor” – Hoje, às 19h, no Café com Letras (Rua Antônio de Albuquerque, 781). Entrada franca