"Sinto uma responsabilidade no coração por manter o Carnaval vivo, por participar dos bloquinhos que deram vida à festa, grupos que enfrentaram várias situações para que a folia fosse o que é hoje", afirma Chaya Vazquez, de 40 anos, mãe, percussionista e regente de diversos blocos de rua da capital mineira.

A argentina, que se considera belo-horizontina desde 2001, está no comando de mais de uma dezena de agremiações (Comó Te Lhama?, Mamá na Vaca, Tête a Santa, Blocomum, Praia da Estação, Alcova Libertina, Filhos de Tcha-Tcha, Bloco do Peixoto, Truck do Desejo, Bloco do Manjericão e Viro Santo). Desde 2009, leva alegria a milhares de nativos e turistas que curtem, em BH, a maior festa do Brasil.

A percusonista diz que, durante o evento, dorme cerca de quatro horas por dia e passa mais de 16 trabalhando entre os blocos, aumentando a fonte de renda. 

chaya vazquezChaya Vázquez, argentina enraizada belohorizontina desde 2001, está no comando de mais de nove blocos de rua da capital mineira

A rotina que antecede a folia é assim: Chaya acorda às 7h para levar a filha Maia, de 10 anos, para a escola. Logo em seguida, uma das principais personagens do Carnaval vai aos ensaios dos grupos em que é regente. Segundo ela, a preparação física é fundamental. "Eu me alimento com muitas fibras e legumes para aguentar o batente de mais de oito horas à frente de um bloco. Além disso, pelo menos três vezes por noite trabalho como percussionista", ressalta. 

Chaya é uma das diversas mulheres que, desde 2009 - quando o Carnaval de Belo Horizonte ressurgiu com mais vigor, reacendendo a tradição dos blocos de rua - lideram o pelotão de frente dos cortejos, trazendo muita animação, diversão e amor ao que fazem. 

Liderança e dificuldades

A potência feminina no Carnaval, puxada pelo marcante "Praia da Estação", um dos responsáveis pelo "renascimento", fez com que mais mulheres aderissem ao comando de alguns blocos, tomando conta de percussões, coordenações e baterias. 

Segundo Vicki Orí, que trabalha 100% do tempo com música e é regente de ao menos sete bloquinhos, além de idealizadora do "Tapa de Mina",  "em todos os meios profissionais, as mulheres 'ralam' muito para conseguir seu espaço". "E, no Carnaval de BH, a mulherada também tem ocupado seu devido lugar", afirma. 

vicki ori

Vicki Ori trabalha 100% do seu tempo com música; ela é regente de ao menos sete blocos de rua, além de ter idealizado o "Tapa de Mina"

Vicki é regente de blocos carnavalescos desde 2016. Ela conta que, nos cortejos, a composição é feita em quase sua totalidade por mulheres. "Acredito que já temos mais de dez regentes mulheres hoje na cidade. E não só nos blocos que já trabalhei, mas em todos os outros, a maioria dos integrantes é mulher", comenta.

Paixão pela música

Amor, paixão e comprometimento, ainda mais quando se trata de música, é o que move Daniela Ramos, de 41 anos, filha de artistas e, atualmente, coordenadora de três trabalhos (Trovão das Minas, Baque de Mina e Tira o Queijo), nos quais o ritmo principal é o "Maracatu de Baque Virado", muito popular no Nordeste.

Durante a folia, Daniela trabalha, em média, de 16 a 18 horas por dia, precisando virar noites para conseguir dar conta de toda a demanda. E não falta motivação. "Antes de ser coordenadora de bloco, sou uma estudiosa da percurssão. Tenho amor pela profissão e a crença de que a cultura popular e a arte são transformadoras", destaca.

Dani RamosDani Ramos, de 41 anos, é coordenadora de três trabalhos (Trovão das Minas, Baque de Mina e Tira o Queijo) com o ritmo principal sendo o Maracatu de Baque Virado, muito popular no nordeste brasileiro

Ainda segundo Daniela, um de seus grupos, o Baque de Mina, formado exclusivamente por mulheres, é considerado pelos integrantes como um braço "feminino e feminista" do bloco Trovão das Minas. "É mais novo, fundado em 2013, que busca como um de seus objetivos centrais amplificar a voz das mulheres na sociedade, na busca por equidade entre os gêneros. A luta feminista está presente através de nossas toadas autorais, que estão o tempo inteiro estimulando o emponderamento feminino", explica.

Daniela lamenta, porém, a falta de reconhecimento aos percussionistas e músicos, em geral, e "o sucateamento de vários setores na área cultural brasileira". Para ela, o posicionamento da mulher nos grupos de Carnaval, como no caso de Belo Horizonte, é fator crucial na luta por avanços para o próprio gênero e para a arte e a cultura no país.  

Preconceito e assédio 

Temas muito discutidos na sociedade atualmente, o preconceito e o assédio sexual contra mulheres ganham especial destaque no Carnaval. Segundo Daniela, "o ambiente nos blocos é geralmente bom. Mas, se em algum momento, durante os desfiles, nós percebermos qualquer risco que seja de assédio ou preconceito contra a mulher ou qualquer outro tipo de preconceito, seja gordofobia, lesbofobia ou misoginia... Pelo amor de deus, preconceituosos não passarão!", garante a percussionista.

"A gente está vendo o extermínio de mulheres, com índices alarmantes, e também da população LGBTQI+. Atualmente, o Brasil é o país que mais mata essas pessoas. Então, isso tem que ter um fim, e o fim passa pela concientização de todos e pelas lutas populares".

*Com Caio Augusto, estagiário sob supervisão de Evaldo Fonseca