O Oscar deu o seu recado. O anúncio de “Democracia em Vertigem”, assinado pela diretora mineira Petra Costa, entre os indicados na categoria de melhor documentário, pode ser entendido como espécie de apoio do maior prêmio da maior indústria do cinema mundial à produção brasileira, que vem sofrendo um processo de inanição a partir da retirada de recursos estatais e da paralisação da Agência Nacional de Cinema (Ancine).

O filme de Petra tem muitas qualidades que fizeram a Netfix disponibilizá-lo em sua plataforma, mas o que o levou efetivamente ao Oscar é o caráter político da premiação, especialmente em relação ao exterior. E, no caso de “Democracia em Vertigem”, esse viés é confirmado pelo tema do documentário, que trata do processo de impeachment de Dilma Rousseff com uma visão pessoal da diretora sobre o que considerou perda de espaço político da esquerda no país.

Temas políticos

O olhar voltado para questões políticas se faz notar, nesta edição, desde as seis indicações de “Parasita”, filme sul-coreano que aborda as desigualdades de classe – tema que também permeia “Coringa”, longa-metragem com o maior número de nomeações (11) –, até os concorrentes do representante brasileiro, – entre eles, “For Sama” e “The Cave”, que trazem a experiência feminina durante a guerra civil na Síria.

Polêmica

Por aqui, a recepção à indicação de “Democracia em Vertigem” dividiu opiniões. Em outros tempos de polarização política menos agressiva, a presença do filme no Oscar seria motivo de comemoração. Agora, boa parte das críticas feitas por alas de direita aponta para o fato de ele ser “ficção”, apresentando um registro parcial da realidade política dos últimos seis anos. Acusação que esbarra na definição do formato. 

Para ser classificado como tal, um documentário não precisa mostrar a realidade “como ela é”, já que, por mais que um cineasta quisesse ser isento, o que prevalecerá é uma visão subjetiva dos acontecimentos. No caso da obra de Petra, até por ser ela a narradora, a cineasta nunca nega que estamos diante de sua interpretação. Não é muito diferente do que outros grandes cineastas já fizeram.

O perfil do PSDB no Twitter ironizou. “Parabéns à diretora Petra Costa pela indicação de melhor ficção e fantasia por Democracia em Vertigem”, escreveu o partido na rede social. O movimento Vem Pra Rua afirmou que o filme é uma tentativa “mau caráter” de “reescrever a história”. Na outra ponta, perfis da esquerda – com os do ex-presidente Lula, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, e a ex-deputada Manuela Dávila (PCdoB) celebraram. 

Se “Democracia em Vertigem” ganhar o Oscar, em 9 de fevereiro, entrará para a história como a primeira produção brasileira a faturar a estatueta em 92 anos de premiação, num período em que o audiovisual nacional chama a atenção em vários festivais no mundo. Se não vencer, somente a indicação já significará uma grande vitória, devendo quadruplicar o interesse de espectadores pela obra de Petra nos próximos meses, que continua disponível na Netflix. É uma vitória do cinema e não de correntes políticas.