O título do mais recente álbum de Sandami faz alusão à sua própria trajetória. “Vida Longa” (2019) é uma espécie de celebração pelas mais de duas décadas de carreira do cantor paulista, conhecido e reconhecido por ter feito parte do Sambô, grupo que tem como proposta executar um crossover entre rock e samba – provavelmente você já ouviu a banda revisitando clássicos de Rolling Stones, U2 e Led Zeppelin.

A maturidade e a experiência adquiridas com o tempo de estrada ajudaram o artista – que deixou o Sambô em 2019 – a cunhar um trabalho que transita por várias áreas musicais, como é de praxe. “Vinte anos de carreira, definitivamente, me mostraram que sou um cara muito eclético, não tenho uma tribo definida, e sou de todas elas ao mesmo tempo”, destaca Sandami, que aproveita a deixa para descrever um pouco deste novo trabalho solo.

Sandami

“Eu não estava pensando em tendências do mercado musical ou coisas parecidas para produzir ‘Vida Longa’, um álbum todo autoral e que traz na sua essência tudo que ouvi e me influenciou por todo esse tempo: rock, MPB, samba, música instrumental, muito som gringo, letras que contam histórias... Essa ‘nova fase’ está ótima! É um álbum diferente do que eu vinha fazendo”, afirma.

Sandami tem razão. Além da diversidade inerente, também está intrínseca ao trabalho um lado emocional mais aflorado, consequência de dois fatos que aconteceram durante o processo de criação e produção de “Vida Longa”. Um deles, diz respeito ao nascimento de sua filha.

Sandami

“Pois é, esse disco, em relação aos outros, tem um sentimento muito especial. Acho que uma das coisas mais emocionantes da minha vida foi quando eu e a Mara fomos fazer o primeiro ultrassom da Lis, que, até então, era só um pontinho de luz jorrando vida com o BPM à milhão”, relata.

Por outro lado, Sandami teve que encarar a perda de outro ente querido. “A Mi, minha avó, estava completando 90 anos, cheia de experiências muito bem vividas. Mas sabíamos que ela estava completando seu ciclo aqui com a gente. No meio dessa troca de gerações, pensei muito sobre a vida, e esse tipo de pensamento nos leva a compreender melhor o que estamos fazendo aqui, como vamos seguir e tal...  Foi assim que escrevi a faixa-título desse álbum.  A Mi se despediu da gente nesse ano (2019) e por mais conformado que esteja, já sinto muita saudade. Ela me inspirou, me incentivou, me deu muita bronca, me fez um cara melhor”, declara.

Planos

Após “Vida Longa”, Sandami “desenha” seus próximos passos. “Ainda tem muita coisa que gostaria de fazer e não tive tempo, mas minha próxima ambição palpável talvez seja gravar um conteúdo visual ao vivo e com o calor do público. Ainda não tenho isso em minha carreira solo. Gosto muito de registros ao vivo, com roteiro cênico, um mundo paralelo conversando com a música que está rolando”, diz.

Sandami

Parcerias com outros artistas também habitam o imaginário do cantor. “Tem tanta gente com quem eu gostaria de fazer um ‘fit’. Já dividi o palco com muita gente boa e querida, recentemente com Rappin’ Hood, em uma faixa que trata de questões ambientais chamada ‘Eu Tô Vendo Tudo’. Vou citar duas cantoras brasileiras (que eu gostaria de fazer parceria) e que estão em momentos incríveis na carreira, a Iza e a Kell Smith. Tenho gostado muito do som delas”, comenta.

Cultura em 2019

Por fim, Sandami faz questão de fazer sua análise com relação ao Governo atual e o tratamento dado à cultura. “A cultura nacional está em carreira solo. Ela anda por conta própria. É uma pena nosso governo não entender a arte, o entretenimento e a cultura como fonte de economia. Claro que, como em vários setores, a cultura precisava de melhorias, não de piora. Por enquanto, a gente vai aplaudindo o Cirque du Soleil, a premiação do Grammy e do Oscar e se empanturrando de pipoca”, opina.