Em matéria de família disfuncional, os Addams se esforçam ao máximo para não serem – ou parecerem – o melhor exemplo de lar feliz. Só que passam longe de conseguir, com todas as “maldades” virando fichinha perto do que humanos “normais” são capazes de fazer. Esta inversão de valores dá o tom desta criação, que agora ressurge como a animação “A Família Addams”, destaque entre as estreias de quinta-feira nos cinemas.
 
Como na série de TV dos anos 60 e nos dois filmes lançados na década de 1990, o desenho tem no humor ácido uma forma de crítica a uma sociedade ambiciosa e que persegue tudo aquilo que foge às convenções. Na história, os Addams se mudam para um manicômio abandonado onde, anos depois, surge uma cidade planejada nas redondezas, dando início a vários conflitos, digamos, racistas.
 
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Morticia e Gomez lideram a família disfuncional que rendeu séries, desenhos e filmes

 
Com início promissor, o filme perde a mão na segunda metade, quando o discurso contra preconceitos arraigados ganha eloquência em detrimento da comicidade, repetindo situações recentemente exploradas em “Hotel Transilvânia”, que a dublagem de Gomez (a mesma de Conde Drácula) faz questão de nos lembrar.
 
Entre os bons momentos de “A Família Addams” estão as muitas referências a filmes de terror, antigos e novos, que vão de “Frankenstein” – o clássico de 1931 – a “It – A Coisa”, além de abordar um tema da moda – as “fake news”, notícias tão daninhas quanto os explosivos do personagem Feioso e o espírito maligno que mora na casa dos Addams.
 
Débora Falabella já fez parte da família
 
Os Addams já ganharam uma versão teatral produzida em Belo Horizonte pela Companhia Odeon, em 1996. Protagonizada por Yara de Novaes, Débora Falabella e Jorge Emil, sob direção de Carlos Gradim, o texto de “The Addams” tomou várias liberdades em relação aos personagens criados por Charles Addams.
 
“Era como se fosse uma história nova daquela família. Adicionei personagens e joguei coisas minhas, relacionadas à minha separação na época, além de algumas sacadas políticas”, registra Edmundo de Novaes (irmão de Yara), que também escreveu as letras das canções, junto com Claudia Cimbleris, em seu primeiro trabalho como dramaturgo.
 
“Fiz o texto sob encomenda, de forma rápida. Estava com viagem marcada para a Espanha, onde faria o doutorado. Quando voltei, dois anos depois, a peça ainda estava circulando. Hoje me vem à lembrança parte daquelas músicas, em que já brincava com intertextualidade, fazendo referência, por exemplo, à chacina da Candelária”, rememora.
 
Após a peça, Débora Falabella, que interpretava a Vandinha, entrou para o elenco de “Malhação”. Nove anos depois, o autor e professor universitário se reencontrou com a atriz, na peça “Noites Brancas”.