A geração Coca-Cola ficou eternizada na voz de Renato Russo, quando estava à frente da Legião Urbana nos anos 80. A expressão também serviu para agrupar algumas bandas surgidas em Brasília naquela época e que tinham as letras de protesto como carro-chefe e um estilo muito inspirado no punk rock. O que veio depois, pelo tom mais debochado e menos atrelado a questões políticas, ganhou o nome de “Baré-Cola”.

Cunhada pelo fotógrafo Patrick Grosner, que clicou praticamente todas as bandas nascidas na década de 90, o termo acabou batizando também o documentário “Geração Baré-Cola – Usuários de Rock”, que será apresentado de hoje a quinta, no Sesc Palladium. “Com a redemocratização, tudo o que precisava ser falado já tinha sido dito na década anterior, com a atmosfera podendo ser menos séria”, assinala Grosner, que assina a direção do filme.

O rock brasiliense ficou um pouco mais divertido, podendo falar “besteira e palavrão”, com o Raimundos sendo o maior exemplo desta liberdade linguística. “As letras deles estavam longe de serem politizadas. Faziam críticas sociais, mas eram leves e engraçadas”, registra o fotógrafo, que destaca ainda como grande diferencial o desapego a um estilo. Na receita das bandas, valia um pouco de tudo – reggae, punk, jazz, funk e pop.

“Quando a gente ia à Feira de Música, no Teatro Garagem, às terças, era para ver a banda que gostava e também outras bem diferentes que tocavam por lá. Essa mistura era comum também entre os músicos, já que um guitarrista poderia estar em outro grupo”, frisa Grosner. Eles não precisaram sair do Distrito Federal para fazer sucesso, não deixando, com raras exceções, como Raimundos e Maskavo Roots, de serem bandas locais.

O filme, por sinal, aborda um período que vai do final dos anos 80a 1994, pouco antes de o Raimundos se mudar para São Paulo. “Quando a geração 80 saiu, a programação dos bares foi preenchida pela meninada”, pontua. Outra característica desta geração é a origem, não se restringindo apenas ao Plano Piloto de Brasília, como era o caso de sua a antecessora, formada principalmente por filhos de professores e diplomatas.

O termo Baré-Cola diz muito sobre o espírito dessa patota e também da estrutura do documentário, apoiado em depoimentos divertidos e imagens de democlipes feitas de maneira tosca. “Era um refrigerante ruim, horroroso, mas também muito barato. A molecada toda tomava nas festinhas”, registra Grosner, que mostra as demos (feitas no formato VHS) em seu estado atual, com chuviscos e desbotamento, “para dar uma charme”.

Ele aproveitou o fato de que os anos 90 foram o início de uma geração midiática, com muito material gravado. “Eu chegava para uma banda e perguntava se, na casa de um primo bêbado, não tinha uma fita socada lá sobre um show feito não sei aonde, gravada de maneira amadora. E, na maioria das vezes, a resposta era sim. Assim consegui uma demo atrás da outra, totalizando 12 no filme”, conta o realizador.