Pouca gente sabe que os museus possuem uma espécie de Fort Knox – uma das edificações mais protegidas do mundo, onde está o maior depósito de ouro dos Estados Unidos. Neste espaço, somente duas pessoas (o museólogo e o conservador) têm livre acesso e há um rígido controle sobre o que entra e o que sai. Adentrar neste local exige cuidados especiais, como o vestuário, para não levar nada que possa prejudicar toda aquela riqueza armazenada: as obras museológicas.
 
Os trabalhos mostrados nos espaços expositivos são apenas a ponta do iceberg do acervo, que fica quase todo ele preservado em locais geralmente climatizados, chamados de “reserva técnica”. O nome é pouco atrativo para um lugar tão vital, o coração dos museus. “É lá que guardamos o que o museu tem de mais precioso”, assinala Luciana Bonadio, conservadora e restauradora do Museu de Arte da Pampulha (MAP) e uma das responsáveis pela “vida” de nada menos do que cerca de 1.400 obras.
 
Agulha no palheiro
Quando a reserva técnica passa a receber visitação, “deixa de ser um lugar de guarda e segurança, virando uma sala de exposição”, assinala Natercia Pons, conservadora e coordenadora do Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB). A restrição é importante não só para a segurança como também para que nada atrapalhe a ordenação dos objetos. O museu localizado no bairro Cidade Jardim conta com mais 70 mil itens. Se estivessem espalhados sem qualquer critério, seria como tentar achar uma agulha no palheiro.
 
Dependendo do material, eles são conservados em suportes como traineis, mapotecas, estantes e plataformas deslizantes. “Não é muito diferente de uma biblioteca. Cada peça tem um código para facilitar a localização. Por isso, nas bibliotecas, é de bom tom deixar os livros na mesa para o bibliotecário devolver às prateleiras. Assim se garante que o próximo consulente terá acesso ao objeto. Se vários profissionais entrassem indiscriminadamente na reserva técnica, qual garantia teríamos?”, indaga Natercia.
 
Evidentemente que a área de reserva técnica de um museu não será idêntica a de outro. Tudo vai depender da vocação destes centros de exposição. O MAP, por exemplo, está voltado para obras de arte modernas e contemporâneas brasileiras. Já o MHAB, como seu nome mesmo diz, abraça a parte história, especialmente no que diz respeito a Belo Horizonte. “Por sermos um museu histórico, a gama de objetos e materiais que a gente guarda nem sempre estará ligada a uma particularidade artística”, diferencia Natercia.
 
Tanto o MAP como o MHAB já estão com as suas capacidades esgotadas, dependendo da tipologia (que vão de pinturas, esculturas fotografias e documentos a instalações e objetos de uso cotidiano). No segundo, a parte de grandes objetos tridimensionais chegou ao limite. “O que não quer dizer que vamos limitar a entrada de novas obras”, afirma Luciana Bonadio, ainda esperançosa de que um anexo ao museu seja construído, projeto que vem sendo ventilado desde 1987. “O que a gente faz é reorganizar para poder caber. Se é importante, tem que entrar para o acervo”.
 
“Conservação preventiva é igual ir ao dentista para fazer uma limpeza dental. Certamente é melhor prevenir do que depois ter que tratar de canal”
Natercia Pons
 
Natercia observa que objeto de uso cotidiano pode vir a ser, ao longo do tempo, uma peça museulizada. “Ao entrar no museu, ela adquire mais um sentido. A cadeira deixa de ser a cadeira, objeto para se sentar, e passa a carregar informações próprias – o local em que foi usada, onde foi produzida. A tipologia conta muito sobre o que você encontrará dentro de um museu. No Abílio Barreto, os objetos de uso comum são trabalhados de forma a ganharem significado para toda uma cidade”.
 
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Coordenadora do Museu Histórico Abíio Barreto exibe cadernos de notas da Comissão Construtora de BH 

 
Reservas cheias não são garanita de qualidade
 
Natercia Pons, coordenadora e conservadora do Museu Abílio Barreto, pondera que é preciso desmistificar a ideia de que bons museus têm reservas técnicas lotadas. “Bons museus têm reservas com objetos que contam alguma coisa, com uma linha de pensamento voltada para a vocação do museu”, assinala. 
 
Para ela, é fundamental que os museus identifiquem as suas lacunas, não se esquivando de pedir o empréstimo de obras a outros museus ou espaços, se for importante para contar uma história. “É purismo achar que temos que expor somente o que é nosso”, diz a coordenadora.
 
Além de guardião do acervo, o conservador é como uma médica de família, checando periodicamente o “estado de saúde” de cada peça. Em situações limites, exibe habilidades de cirurgião, tentando devolver a vida a um paciente terminal, quando um quadro, por exemplo, chega ao museu para ser restaurado, antes de entrar para o acervo. “Expor uma obra não é só colocá-la na parede. É preciso saber se não sofrerá dano nenhum”, alerta Luciana.
 
“Reserva técnica não tem janelas, grelhas, duas portas, luz forte, saídas de emergência. Os corredores lá dentro são pequenos. E a porta é lacrada, para que insetos não possam entrar”
Natercia Pons
 
Apesar de o restaurador carregar um certo glamour, por praticamente reanimar algo quase sem forças, Luciana não tem dúvidas de que a conservação preventiva é ainda o melhor remédio. “Quando a obra precisa de restaurante, ela está doente e precisa passar por um tratamento. Mas quando você ao médico para fazer prevenção, prolongará a vida por mais tempo. No nosso caso, é sempre levantar quais problemas podem ocorrer caso fique em determinado lugar, por exemplo”, explica.
 
O trabalho de conservação preventiva é constante. De tempos em tempos, é feito no MAP um inventariado. “Fazemos o procedimento de verificação do estado de conservação peça por peça, analisando tudo, passando para o papel e fotografando. É algo contínuo, que nunca acaba. Quando chegamos à última peça, já está na hora de começar de novo, a partir da primeira peça”, registra a conservadora do MAP.
 
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Museu de Arte da Pampulha tem projeto para criação de um anexo

 
Museu Mineiro guarda obras de outros espaços museológicos de Minas
 
“Deixar o ouro escondido não tem graça”, brinca Carolina Montalvão, à frente da Diretoria de Gestão de Acervos Museológicos, ligado à Superintendência de Museus e Artes Visuais do Estado de Minas Gerais. Ela sempre busca pôr em movimentação o acervo do Museu Mineiro, que conta com 3.600 obras.
 
Conservadora por formação, Carolina não administra apenas o acervo do Museu Mineiro como de outros setes museus ligados ao Estado, vários deles localizados no interior, como a Casa Guimarães Rosa, em Cordisburgo, a Casa Guignard, em Ouro Preto, e o Museu do Crédito Real, em Juiz de Fora.
 
Com exceção do Centro de Arte Popular, que fica no prédio da Cemig, em Belo Horizonte, e do Museu do Crédito Real, nenhum deles abriga uma reserva técnica para o seu acervo. Todo o material é depositado no Museu Mineiro, em duas grandes salas. Lá também acontece o trabalho de restauração.
 
A obra mais recente adquirida pelo Museu Mineiro é uma pintura de Nazareno Altavilla, artista paulista falecido em BH em 1989. Era chamado de “o pintor das casas velhas”
 
Diferentemente do Museu Histórico Abílio Barreto e do Museu de Arte da Pampulha, a reserva técnica não é climatizada. “É por segurança”, explica Carolina, receosa de que um desligamento dos aparelhos de ar condicionado durante a noite possa danificar as obras devido à mudança brusca de temperatura.
 
“A falta de climatização não é um problema. As obras já estão adaptadas ao nosso espaço. Com exceção de material fílmico, que precisa de uma temperatura específica, a recomendação hoje dos órgãos internacionais é de que o clima seja o mais natural possível. E nunca tivemos um problema em relação a isso”, afirma.