Ryan Coogler já tinha entregue um dos melhores filmes com o boxeador Rocky Balboa– mesmo “Creed” (2015) não sendo uma sequência oficial da série criada por Sylvester Stallone no final da década de 1970. O cineasta buscou a essência do personagem, o “o olho de tigre” que o levou a vencer as limitações, inclusive sociais. É esse “olho de tigre” – curiosamente, o olhar de outro felino na verdade – que se vê em “Pantera Negra”, dirigido e roteirizado por Coogler.
 
Não se trata apenas de um filme de super-heróis, que defendem a Terra de grandes perigos. Esses elementos, evidentemente, estão lá, não fugindo ao perfil fantástico estabelecido por Stan Lee (no caso de Pantera Negra, juntamente com Jack Kirby) nos gibis da Marvel. Mas são acrescidos de uma afirmação identitária sólida e envolvente, mais potente que a tecnologia de última geração usadas e as cenas de ação, possibilitando ver nos olhos dos personagens um embate histórico.
 
Talvez por isso Coogler recorra constantemente aos closes, permitindo que as expressões dos atores tenham função dramática, algo raro num filme de super-heróis. A força deixa de estar apenas nos apetrechos e no desejo de combates, mas num sentimento que vem de dentro de cada um deles. Opção que oferece verossimilhança a um enredo, que, em síntese, aborda um outro tipo de luta: tradição versus modernidade, em suas mais variadas instâncias.
 
A começar por um país fictício (Wakanda) que preserva rituais como a passagem de um governo de características monárquicas ao mesmo tempo que usufrui da mais avançada tecnologia. O sucesso do roteiro é não tornar esse povo uma espécie de alienígena como Superman, o que poderia ser reforçado com o mote de uma pedra colorida (no caso, azul) e poderosa. O roteiro constantemente sublinha a ligação com a Natureza, com a mãe África.
 
E por falar em mãe, é importante ressaltar o papel das mulheres nesta sociedade. Pantera Negra está cercado por representantes sábias (a irmã cientista), fiéis (a general do seu exército) e que o questionam em suas ações – a namorada, para quem Wakanda não deve estabelecer muros que os separe dos necessitados (o que pode ser lido como uma inteligente crítica ao governo de Donald Trump). A partir desse apartheid, “Pantera Negra” realça a necessidade do arrependimento e do perdão.