Ir ao cinema sempre foi uma dificuldade para Ricardo Santos. Não só pela questão financeira, quando muitas vezes teve que recorrer à ajuda de familiares e fazer pequenos trabalhos para poder acompanhar a série favorita, protagonizada pelo bruxinho Harry Potter. 
 
“Tem a questão cultural também. É muito difícil sair de casa, pegar dois ônibus e chegar num cinema de shopping da zona Sul. As pessoas olham para você de forma diferente”, registra o estudante de 24 anos, aluno do curso de Ciências Biológicas na UFMG.
 
O receio não era só dele. Muitos jovens que participam das atividades do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do bairro Aarão Reis, levados pelo Hoje em Dia para ver o filme “Pantera Negra”, na semana passada, carregam histórias parecidas.
 
Nas aulas de teatro e dança realizadas no CRAS, alunos oriundos de áreas de risco social aprendem a enxergar e respeitar a própria cultura. Uma mensagem que está muito presente no filme estrelado pelo maior super-herói negro do cinema. 
 
Belo Horizonte tem hoje com 34 unidades do CRAS e cada uma delas referencia cinco mil famílias e atende, no mínimo, mil famílias por ano. São mais de 150 mil pessoas atendidas nas nove regionais
 
Para Santos, o papel de predominância dos negros no mega sucesso da Marvel serve como um espelhamento, ajudando a entender que funções de destaque na sociedade não estão reservadas apenas aos brancos, bastando confiar e trabalhar para conquistar um lugar de valor na sociedade.
 
“Esse filme é um ponto fora da curva. O mais importante para mim é mostrar que é possível ocupar os espaços e ter a chance de chegar ao lugar que sonha”, salienta, destacando ainda a importância das mulheres negras em “Pantera Negra”.
 
Protagonismo
Helena Ramos Gonçalves, de 17 anos, avalia que um dos aspectos mais interessantes é que a história não é passada no subúrbio. “O negro mostrado no filme é o africano. Ele não está numa condição de inferioridade. Está defendendo o seu país e o mundo”.
 
Assim como Helena, Ketlen Joice, de 18 anos, esteve pela primeira vez num cinema da zona sul. Antes, tinha visto “Deadpool”, outro herói da Marvel, numa sala perto de casa. “Com a passagem, acaba ficando caro”, observa Ketlen, residente no bairro Ribeiro de Abreu.
 
Nas aulas de teatro no CRAS, ela tem estudado e levado para as apresentações a realidade dos negros. “Recentemente fizemos uma pesquisa sobre a vida das domésticas dos anos 1920”, registra a aluna, que pretende ser atriz futuramente.
 
Autoestima
Para Marcos Rios, professor voluntário no CRAS, ações sociais como a feita pelo Hoje em Dia ajudam no desenvolvimento social dos jovens, que conhecem apenas a realidade da comunidade deles. Sobre o filme, não tem dúvidas sobre a injeção de auto-estima que oferece.
 
Uma prova disso é Ricardo Santos, que, mesmo a cima do peso, prefere ser chamado pelo apelido, Bola. No 10º período de Ciências Biológicas, seu pensamento está voltado para ajudar a sua comunidade. “Meus pais me estimularam a ler. Mas não são todos os jovens que podem ter isso”.