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Localizado na Rua Levindo Lopes, na Savassi, o cineclube foi um sucesso, abrindo caminho para espaços de programação semelhante

 
Dezesseis de agosto de 1988. Há três décadas, a história das salas de exibição em Belo Horizonte ganhava um capítulo especial, com a inauguração do Savassi Cineclube, primeiro cinema privado de repertório–não vinculado apenas aos blockbusters– e responsável por formar uma geração de cinéfilos.
 
Localizado na rua Levindo Lopes, 358, na Savassi, onde hoje funciona uma cervejaria (a Wäls Gastropub), a pequena sala de 160 lugares foi um divisor de águas, abrindo caminho para a criação de outros espaços voltados para filmes de cinematografias diversas, como o Usina e o Belas Artes. 
 
Inspirado pelo Estação Botafogo, no Rio de Janeiro, o quarteto formado pela jornalista Mônica Cerqueira, seu irmão, o engenheiro Eduardo Cerqueira seu então marido e arquiteto Ivar Siewers, e por Nélio Ribeiro, médico de formação, mudou a maneira de ver filmes na cidade. “O diferencial era a interação com o público. Não existia internet na época, é bom lembrar. Nós disponibilizamos um caderno de sugestões e ninguém ficava sem resposta. Ele acabou se tornando também um fórum de discussão”, recorda Mônica.
 
Pela primeira vez, o espectador tinha voz na programação semanal. “Falando assim parecia uma bobagem, ainda mais nos dias de hoje, mas os cadernos foram de grande importância. Sempre que podia, a Mônica atendia os pedidos”, destaca Adilson Marcelino, primeiro bilheteiro do Savassi, mais tarde assessor de imprensa e programador.
 
Os primeiros filmes exibidos no Savassi foram curtas vencedores do Festival de Cinema de Gramado, no Rio Grande do Sul. Entre eles, “A Voz da Felicidade”, de Nelson Nadotti, e “Barbosa”, de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo
 
Como naquele tempo o VHS começava a deslanchar, filmes entraram e voltavam várias vezes na programação. Um dos campeões foi “Betty Blue” (1986), de Jean-Jacques Beinex. “O Fundo do Coração” (1982), de Francis Ford Coppola, e “Asas do Desejo” (1987), de Wim Wenders, também frequentavam com assiduidade a tela do cineclube.
 
“Lembro bem de um espectador dizendo que o ‘Asas’ era um filme para se ver de joelhos de tão belo. O Savassi tinha um público cativo e foi decisivo para a minha formação”, observa Bruno Leal, professor do Departamento de Comunicação da UFMG e assessor de imprensa do espaço entre 1988 e 1993.
 
Intelectual
Alguns filmes só se tornaram sucesso possivelmente pela peculiaridade do Savassi. Como explicar, por exemplo, que “um longa brasileiro de humor meio cerebral como ‘Fogo e Paixão’, dirigido por dois arquitetos de São Paulo (de Marcio Kogan e Isay Weinfeld), se transformaria num estrondoso sucesso?”, indaga Leal. “Era inacreditável. Ninguém entendia”, completa.
 
O professor e pesquisador Ataides Braga lembra que muitos cinéfilos que frequentavam as mostras no Cine Humberto Mauro, do Palácio das Artes, até então o único lugar a exibir fora de circuito, migraram para o novo espaço. “O Palácio era um cineclube no sentido clássico, para ver filmes. O Savassi era diferente, um cineclube no sentido intelectual”.
 
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“A gente exigia muito daqueles textos. A informação tinha que ser cativante”, afirma Mônica Cerqueira

 
Sala na Savassi era lugar de encontros e trocas de ideias
 
O sucesso do Savassi Cineclube se deve ao desejo de seus fundadores em ir além na programação de cinema. Os debates com os diretores logo se tornaram um diferencial do espaço, que também se abriu à realização de exposições e cursos. Seu surgimento coincidiu com o boom da videoarte mineira, abrindo as portas para os participantes do movimento.
 
“O Savassi se tornou um lugar de encontro, onde as pessoas viam os filmes e ficavam na porta por horas para falar deles. O cinema se ajustou muito à cara de BH naquela época, que era mais reflexiva. Virou um potencial de ideias”, orgulha-se Mônica. “Era impressionante. Às 17h, que era a primeira sessão, o público já dobrava o quarteirão”, registra Adilson. 
 
Frequentador de carteirinha do cinema, Adilson estreou na função de bilheteiro em 1991, após comentar com Mônica “como deveria ser bom trabalhar aqui”. O trabalho atrás do balcão era considerado vital pelos proprietários, que, antes de Adilson, se revezavam na venda de bilhetes. “Eu era o primeiro a receber o público, que, exigente, queria saber detalhes do filme em exibição”.
 
A história do Savassi deve muito ao Cine Humberto Mauro, onde Mônica foi gerente por dez anos. “Quando cheguei lá, em 1979, a sala era pouco conhecida e tentei impor o ritmo de um cinema. Eventualmente havia mostras completas de diretores. O pessoal do Banco Nacional gostava do meu trabalho e vi nisso a possibilidade de abrir meu negócio, com o patrocínio direto deles”, conta Mônica.
 
Filhos e fim
De olho na parte de pequenos anúncios dos jornais, ela encontrou o espaço que ficava na sobreloja de um prédio de apartamentos. “Me pareceu um lugar bem interessante, central e acessível. Queria um espaço que tivesse a possibilidade de um bar junto. Não encontramos. Só conseguimos concretizar isso com o Usina, aberto quatro anos depois”. 
 
Após a criação do Usina, (fechado em 2009) que chegou a ter quatro salas na Rua Aimorés, o grupo abriu o Cine Imaginário, no Santa Efigênia, em 1995. Um ano depois, os sócios se desentenderam e Mônica ficou apenas com o “filho” mais novo, um grande galpão capaz de receber shows também e que não teve vida longa. O Savassi, mais tarde, virou um cinema de reprises e fechou suas portas em 2012, já nas mãos de outro dono.
 
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MÔNICA CERQUEIRA
“No início, foi um momento tenso. Por pressão de um grande exibidor de Belo Horizonte, as distribuidoras de filmes passaram a me boicotar. Para não deixar a peteca cair e manter a programação viva, passei a alugar filmes no acervos de embaixadas e de colecionadores. O Savassi teve tanto sucesso de público que, depois de três meses, as distribuidoras começaram a me procurar, uma a uma. Então, por uma conspiração do universo, também começaram a surgir as distribuidoras independentes, com filmes adequados ao nosso perfil. A gente se impôs e fizemos lançamentos importantes, como ‘Asas do Desejo’, de Wim Wenders. Muitos diretores brasileiros lançavam os filmes lá, gerando filas e mais filas. Foi um movimento muito bonito”
 
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ADILSON MARCELINO
"O Savassi Cineclube decaiu porque surgiram outros cinemas, como o Usina e o Belas Artes, com melhores condições técnicas. No mercado exibidor é assim. Quando se abre uma sala nova, a anterior já envelheceu. E no caso do Savassi, não havia como mexer na estrutura, como cabine, inclinação das poltronas, distância da tela... Mas ele se manteve por muito tempo. Apesar de o público ter migrado, muita gente ainda ia lá”
"A sala tinha um público amplo, com pessoas interessadas. O cinema tinha um papel muito diferente do que é hoje. Sem querer generalizar, o cinema hoje é entretenimento. Naquele tempo, tinha algo existencialista ali, fazendo parte da formação das pessoas”
 
BRUNO LEAL
“Quando entrei no Savassi em 1988, eu era muito jovem. Tinha 21 anos e guardo na memória uma imagem muito bonita, de quando chegava para trabalhar. O escritório era no fundo da sala de cinema e como eu chegava no início da tarde, antes da sessão das 15h, atravessava a sala vazia, na escuridão daquele lugar”
“O Savassi era um espaço de efervescência. As pessoas se reuniam na porta. Havia toda uma pauta cultural. Naquela época, não tinha salas em shopping como hoje. Cinemas de rua como Palladium, Brasil e Jacques exibiam os blockbusters. E, junto com o Cine Humberto Mauro, a programação do Savassi era menos óbvia, com muito cinema europeu, independentes e brasileiros”
 
ATAÍDES BRAGA
“O Savassi Cineclube era um charme. A grande diferença dele é que você entrava e saía pelo lado da tela de cinema. Depois fizeram uma reforma, construindo uma sala de vidro atrás, onde ficava o bar e você podia fumar e comer vendo o filme. Como eu gostava de sentar nas últimas fileiras, isso me gerava uma sensação incômoda, como se tivessem fantasmas atrás de mim”.
“Naquele pedaço da Rua Levindo Lopes ficavam alguns bares. Você marcava encontro no cinema, via um filme e depois ia conversar nos bares. Havia aglomeração na porta. Hoje isso se perdeu. Nos shoppings, você não espera na porta, mas na praça de alimentação. E ninguém pode ficar lá dentro do cinema depois de ver o filme”.