A simples menção ao nome Chico Buarque abre um universo gigantesco de sentidos, que se conectam alegoricamente em canções, declarações, paixões. Um destes cosmos, seguramente, é o futebol. Este é um (olha aí) campo sagrado para o compositor que inicia hoje sua esperadíssima (e concorridíssima, como usual) nova turnê nacional, no Palácio das Artes.

O próprio álbum que justifica esta excursão, “Caravanas”, lançado este ano, possuí uma ode ao ludopédio em “Jogo de Bola”; sua equipe de pelada é conhecidíssima, o Polytheama; seu time do coração, o Fluminense, já foi citado em um de seus clássicos (“Bom Tempo”, onde há o “radinho contando direito/ A vitória do meu tricolor”). São vários gols de placa temáticos e, como o craque hoje é meio recluso em relação à imprensa, fomos atrás de um de seus tentos mais perfeitos: o timaço que o acompanha.

Assim, entramos no gramado– o saguão do hotel onde a equipe está concentrada, até domingo–para tentar entender algumas das jogadas do gênio e, principalmente, ter a certeza de que o jogo coletivo é fundamental para entender o esquema tático de um artista que segue sendo o capitão da música popular brasileira.

CAMISA 10

Como bom maestro, Luiz Claudio Ramos é o homem das armações e organizações musicais de Chico. Uma espécie de camisa dez da banda? “Talvez”, ri. “O objetivo do time é servir o artilheiro”, diz, soltando a bola marotamente.

E o arranjador está servindo bem, está servindo sempre, ou pelo menos desde que se encontrou com o craque em 1973, na gravação de “Bárbara”. Ali trocaram seus primeiros passes: “Temos uma cabeça musical parecida, no jeito de harmonizar. E não apenas na música, dividimos uma empatia, também no político e no social”, enumera.

O cargo dá ao vascaíno Ramos o privilégio de conhecer uma nova obra de Chico em estado ainda bruto, em primeiríssima mão. “Ele me manda uma versão em voz e violão, por email ou telefone, às vezes vamos na casa um do outro”, explica o processo. De vez em quando, ambas coisas–a harmonia musical e política– parecem se encontrar em um tempo só, como na faixa título do novo álbum. “Essa, logo que ele mandou, eu vi a força política. Aí a questão do texto ganha bastante importância, a música fica em segundo plano, e a proposta é muito maior: ilustrar a letra”, revela.

Mas, geralmente, Ramos vê os arranjos como trabalho de ourives. “Não é uma coisa técnica, preciso de tempo. E este foi o disco mais longo, começou a ser feito em 2015, com o ‘Blues da Bia’”, uma peça típica do canône “bluesy buarquiano”, como concordamos.

O novo trabalho– que deve ser apresentado na íntegra no palco, em um show que tem mais de 30 canções no repertório– avança sobre um tema comum às últimas produções de Chico: um certo refinamento musical, que, como apontam alguns, poderia sombrear o caráter aderente ou hínico que o público tanto encontra nos clássicos. “Ele tem essa preocupação de se desenvolver musicalmente, procurar novas soluções harmônicas dentro da música”, tira de letra o maestro. “Existe uma grande coerência no percurso dele. Cada um tem seu caminho, alguns artistas se enveredam pelo rock, outros pelo reggae. Ele sempre procurou o belo, essa é a filosofia dele”, garante Ramos.

Na estrada com Chico desde 1993, o contra baixista Jorge Helder assume a defesa

“Eu seria o zagueiro, que de vez em quando leva um drible”, resume o vascaíno Jorge Helder, piscando o olho. Ele e seu contrabaixo são dos menos veteranos no time musical de Chico, sendo escalados “apenas” desde 1993. Como bom defensor, Helder começa assumindo a responsabilidade de iniciar a turnê no que ele considera “uma das cidades mais musicais do Brasil”. “O mineiro tem um ouvido muito bem educado”, ilustra, citando músicos como Lô Borges, Beto Guedes e Toninho Horta.

Falando no artilheiro, Helder elogia seu ritmo mais cadenciado de jogo atualmente. “Fazemos turnês mais ou menos de cinco em cinco anos. Isso faz com voltemos mais motivados”.

E a fome de bola será finalmente saciada hoje. “Ensaiamos direto por um mês, e cada música pra mim é uma aula. É uma alegria muito grande poder trabalhar com um grupo tão legal, tão bacana, escudando um músico como o Chico”.

Apesar da ausência de seu parceiro na defesa– o baterista Wilson das Neves, morto este ano– o baixista garante que a turma continua firme, apesar de todo dia ter “uma gotinha de lágrima nos ensaios, pelo menos no meu olho”, como diz, sobre a ausência do parceiro que também era padrinho de sua filha.

Tudo muito bom, tudo muito bem. Mas resolvemos arriscar um lançamento mais perigoso na grande área: algum bom causo sobre a lendária Chicomania, o culto dos fãs ao chefe? “Sempre tem cenas engraçadas, algum exagero, no calor da emoção. Coisa de quem admira o artista, normal”, joga pra escanteio o zagueirão.

Há quatro décadas ao lado de Buarque, Chico Batera se lança com irreverência na lateral

O outro defensor do time, Chico Batera, acaba entregando a bola que estávamos procurando “A escolha por começar em Belo Horizonte se dá por ser uma cidade de público exigente, mas sem o ‘ auê’ midiático que seria estrear no Rio, por exemplo. Jogar em casa pode ser mais complicado né?”.

Um pecadilho menor para quem vem vestindo a camisa do time há nada menos que 43 anos, garantindo posição de destaque. “Contrariamente as coisas na minha vida, aqui estou na lateral direita. Geralmente tudo pra mim é à esquerda”, ri.

Para o carismático (e também vascaíno!) músico, a quarta década ao lado de Chico possuí duas marcas fortes. “Em primeiro lugar a grande alegria da aceitação de uma obra que perdura”, diz, agradecido. “E tem um outro lado, da dúvida: tem muito mais gente mal informada de quem é o Chico Buarque. Gente que parece não conhecer a cultura brasileira; assim como um pessoal que acha que a política começou com o mensalão”, cabeceia certeiro.

A falta de conhecimento também alcança o lado musical, de “gente que tá nessa de ‘O que o Chico tem nenhuma novidade, ele não lançou nada novo não?’. Um artista como ele é raro hoje em dia, de músicas novas com tanta ou mais qualidade que antes. Além do ânimo pra cair na estrada né?”, diz o músico. “Brinco que começar a turnê é como fazer o Enem, uma nova prova de habilidades”

Ainda defendendo a fase atual, revela que sua favorita do novo disco é a parceria com Edu Lobo, “A Moça dos Sonhos”. “Como ela não tem percussão –ou seja, não toco nessa– fico ali como ouvinte. Sua beleza me chama a atenção”.

Sobre o time, diz, irreverente, que trata-se de “um bando de velhos”, mas de grandes amigos também. “Aqui ninguém quer mais jogar pra platéia. Tem muito respeito mútuo, muita harmonia”.