Em 1986, ninguém imaginava que Arnaldo Antunes, Tony Bellotto, Paulo Miklos, Nando Reis, Branco Mello, Sérgio Britto, Charles Gavin e Marcelo Fromer (1961-2001) poderiam abalar as bases do cenário do rock nacional. Com apenas quatro anos de estrada e dois discos lançados, os então garotos dos Titãs protagonizaram uma grata surpresa com o terceiro álbum “Cabeça Dinossauro” (1986). 
 
Quando ainda se sentiam os respingos da ditadura militar, o som forte influenciado pelas batidas do punk e do funk dos rapazes veio para “romper” com a polícia, a família, a igreja, o sistema financeiro. Falou sobre violência, rejeitou o moralismo. Sobrou para todo mundo – até para os “caras que não fazem nada”, como diz a letra de “Porrada”. 
 
As 13 faixas agressivas soavam como um grito pela juventude brasileira. A banda revolucionou e pode ser considerada dona do disco mais importante do rock dos anos 1980. Trinta anos depois, o trabalho icônico volta à ordem do dia por causa do espetáculo “Cabeça (um documentário cênico)”, do Teatro em Movimento, em cartaz hoje, no Sesc Palladium.
 
Para o diretor Felipe Vidal, o álbum “ficou ainda mais potente” nos dias de hoje. “Parece que rodamos, rodamos, rodamos, evoluímos um pouco e voltamos para o mesmo lugar. A gente saiu do país da ditadura e, agora, vivemos de novo esse momento de retrocesso da democracia. Parece que as músicas foram escritas hoje, já que o pensamento conservador, reacionário começou a aparecer novamente com muita força”, critica.
 
A peça
Vencedor do Prêmio Shell na categoria melhor música, o espetáculo não é um musical, mas, sim, um documentário cênico, e é acompanhado por projeções que desenham um painel dos acontecimentos emblemáticos nacionais e mundiais daquele período. 
 
Com a proposta de fazer uma “ponte” entre 1986 e a atualidade, a peça traz ainda histórias pessoais dos atores. Para tanto, os temas abordados nas canções do disco foram o critério de seleção das memórias do elenco, que, como revela Vidal, quando “Cabeça Dinossauro” foi lançado, era, em sua maioria, adolescente, e estava descobrindo o mundo do ponto de vista do rock. 
 
Todas as composições serão tocadas ao vivo e na mesma sequência do álbum. Assim como no vinil, com lado A e lado B, a peça é formada pelo primeiro e segundo ato. Gavin e Bellotto aprovaram o resultado. “Eles assistiram e ficaram impressionados como as coisas permanecem atuais. Foi uma emoção para eles”, conta Vidal.
 
“Cabeça” é a segunda peça da Trilogia Paramusical, iniciada em “Contra o Vento” e que será fechada com “Catarse, Uma Anti Ópera”, prevista para 2018.
 
Serviço: “Cabeça (um documentário cênico)”, hoje, às 20h30, no Grande Teatro do Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1046). Por R$ 40 e R$ 20 (meia).