Em cartaz nos cinemas com “O Silêncio”, que desenvolve um tema marcante em sua trajetória pessoal e profissional, sobre vocações religiosas, o diretor americano Martin Scorsese sempre mirou o passado, de uma pessoa ou um de um país, como uma maneira de definir quem somos, como se o presente não pudesse ser desvinculado de forma alguma das ações, boas ou más, que criamos até chegar neste momento.

“No Direction Home”, documentário sobre o cantor folk – e agora um ganhador do prêmio Nobel de literatura – Bob Dylan, lançado há dez anos, refaz um longo e sinuoso caminho até encontrar esse artista possuidor de uma visão muito particular de mundo, expressa em suas músicas de maneira visceral. 

O filme, que retorna às prateleiras de DVD com vários bônus, é um raro trabalho dedicado a mergulhar nas questões, origens e influências do biografado, com total êxito.

Diferentemente de outros documentários, que se contentam apenas com as curiosidades e uma cronologia resumida, Scorsese busca não só entender o que se passava na cabeça de Dylan em seus primeiros passos na música, no final da década de 1950, como radiografar os aspectos políticos e culturais da América daquele tempo, ditada pela paranoia sobre uma bomba nuclear que dizimaria o planeta. Instintivamente, o garoto de uma cidade rural de Minnesota se rebelara contra esse estado de coisas.

Influências musicais
Com muito esmero, o cineasta vai elencando uma a uma as influências musicais do cantor, baseadas no universo country e folk, atentando-se aos detalhes que Dylan absorveu rapidamente, em dois meses frequentando o Greenwich Village, em Nova York – a ponto de, no dia que pôs os pés de volta em Hibbing, sua cidade natal, as pessoas imaginarem que ele teria ido a uma encruzilhada e feito pacto com o diabo, lenda ligada principalmente aos artistas do blues.

Assim somos apresentados a maior influência de Dylan, Woody Guthrie, que tinha uma sonoridade forte, mas, como destaca o cantor em entrevista a Scorsese, também muito a dizer, combinação que também marcou uma geração de artistas que não queria compor músicas alegres, dizendo aquilo o que tanto lhes angustiavam. 

Scorsese não faz dele um gênio, mas um homem errático, que não cabia naquela sociedade e que precisava de alguma maneira botar o que sentia para fora.