Quem imaginaria que youtubers fariam fama espremendo cravos e espinhas? Ou que um vídeo de ataque de animais teria milhares de visualizações? Pois é, o universo das redes sociais é capaz de criar nichos bem peculiares.

Com mais de 2 milhões de inscritos em seu canal, a dermatologista norte-americana Sandra Lee, também conhecida como Dr. Pimple Popper, é uma das mais famosas nesta seara. As publicações mostram diferentes tipos de cravos, espinhas, cistos e abscessos sendo retirados dos pacientes. Muitas vezes é necessário ter estômago forte para chegar até o final da gravação.

“Eu adoro espremer cravos e espinhas. E assisto esses vídeos por curiosidade mesmo”, explica a advogada mineira Bárbara Magalhães, de 27 anos. Há dois anos ela segue o instagram da Dr. Pimple Popper. “Assisto todos os dias”, confessa a jovem.

E não para por aí. Nas horas vagas, Bárbara assiste vídeos que mostram parto de animais, cobra engolindo pessoas e cirurgias plásticas. “Desde quando comecei a acessar o YouTube assisto a esses vídeos. É curioso. Algo que nunca presenciei, como o parto de um bicho. Acho que deveria ser médica, pois adoro essas coisas”.

Alguns dos canais se descrevem como “educativos” e colocam como objetivo informar sobre determinados procedimentos, inclusive médicos. Outros se destinam a divulgar vídeos enviados por usuários adeptos do “popping” (ou “estourar algo”, em tradução livre do inglês).

Fascínio
Bárbara não está sozinha. Uma legião de internautas compartilha do mesmo fascínio. Os comentários nesses canais são os mais diversos. Desde pessoas dizendo “poderia ver isso a minha vida inteira” ou “me lembra a época que tirava berne da cabeça do meu irmão. Era ótimo”, até alguns revoltados – não pelo conteúdo em si, mas por querer ver ainda mais: “Me incomoda demais quando tiram o cravo pela metade. Fico indignada”, postou outra seguidora.

Um dos feedbacks mais recorrentes é o de sensação de relaxamento. “Os vídeos servem como uma terapia pra mim. Não desgrudo o olho da tela até acabar. Me relaxa de verdade ver remoção de espinhas”, conta o agente de bordo Vinicius Lage, de 32 anos.

Os internautas contam com mais de 12 mil publicações no YouTube dos chamados “vídeos satisfatórios”, voltados para quem gosta de perfeição, simetria e organização

Seguidor assíduo da doutora Sandra Lee, ele também acompanha o canal Diário de um Podólogo e vídeos de ataques de animais na África. “Unha encravada, furúnculo, bicho de pé, tudo isso eu assisto. Dá uma sensação de limpeza depois que termina. Por isso assisto até o fim. Caso contrário não tem graça”, afirma Vinicius.

Outro vício do agente de bordo é a página no Facebook “Fatos Desconhecidos”, que tem 11 milhões de curtidas. A Fanpage divulga curiosidades como “A atriz Betty White nasceu antes da invenção do pão de forma” ou “Isaac Newton previu o fim do mundo para o ano de 2060”. “Passo horas vendo as publicações. Sei que não vão mudar nada na minha vida, mas algumas são bem engraçadas. É curioso. Me divirto com as informações”, diz.

 

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A doutora Sandra Lee é considerada “diva” pelos seguidores viciados em espinhas explodindo

Psicólogo diz que reação diante de imagens nojentas é quase como um ‘orgasmo cerebral’

O que leva as pessoas a assistirem a vídeos de cravos, cistos e espinhas sendo espremidos? Uma das explicações possíveis é que as imagens geram uma resposta sensorial. “São estímulos visuais, auditivos ou cognitivos. A reação é quase como um orgasmo cerebral. Em alguns casos pode aliviar tensões”, diz o psicólogo Fernando Maciel.

Ele ainda levanta uma questão relacionada ao sentimento de nojo. “É uma sensação que protege as pessoas de situações perigosas, como comida estragada, líquidos com cheiros que não são os de costume, e outras”, exemplifica. Como nesse caso a pessoa não está em risco, pois tudo acontece do outro lado da tela, o efeito acaba sendo de fascínio, de acordo com o psicólogo.

Canais no YouTube de “real reaction”, ou reação a vídeos como os da dermatologista Sandra Lee, têm feito sucesso. Um deles, o SDK, possui 218 mil inscritos e 15 milhões de visualizações

Na internet, também é possível encontrar publicações com reações de pessoas enquanto assistem aos vídeos da Dra. Sandra Lee. Mostram internautas fazendo caretas e incrédulos diante do que veem.

Perfeccionistas
Outros vídeos que fazem sucesso nas redes sociais são destinados às pessoas perfeccionistas. Eles mostram azulejos posicionados da maneira correta, cortes perfeitos e simétricos de legumes, organização de armários e prateleiras por cores e por aí vai.

“Dá uma sensação de que está tudo sob controle. Fora que há imagens que são lindas, como aqueles desenhos que fazem com espuma em cima de um cappuccino”, comenta o relações públicas Pablo Souza, de 36 anos.

Ele segue vários canais que divulgam vídeos do gênero. “Há fins de semana em que passo mais de duas horas assistindo a esses vídeos com minha namorada”, revela. “Tem gente que gosta de assistir filme de besteirol americano para se entreter. Eu assisto a esses vídeos”, acrescenta.

O moço passa longe de postagens no Facebook com imagens que deixariam perfe\ccionistas irritados. “Nos próprios canais há vídeos onde algumas coisas não saem perfeitas. Me dá muito nervoso. Tenho que assistir outro que não tenha erro para me sentir melhor. É um ciclo”, conta, aos risos.

O psicólogo Fernando Maciel explica que esses são comportamentos de ordem e checagem. “Apesar de serem característicos de quem sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), se (forem) isolados e não comprometerem a vida do indivíduo, não sinalizam um problema”.