O ponto de discussão em torno desse novo “Saltimbancos Trapalhões” – com Renato Aragão e Dedé Santana refazendo, em chave ainda mais musical, um dos melhores filmes do famoso quarteto cômico, de grande sucesso nas décadas de 70, 80 e 90 – é a recepção das gerações que não carregam o vínculo afetivo como as mais antigas.

Para quem cresceu vendo, duas vezes por ano, os Trapalhões nos cinemas, o efeito nostálgico prevalece, alicerçado por um tipo de humor que não existe nos dias de hoje, ingênuo, sobre esse herói brasileiro, gente do povo que não precisa exibir intelectuali-zação para se distinguir.

A comicidade estabelece essa porta temporal e talvez dependa dela para se impor. A cada neologismo de Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo (Renato, hoje com 82 anos), não é preciso mais para entender as motivações e características desse personagem, com o baú de memórias sendo imediatamente aberto.

Limitados pela idade, Renato e Dedé (80 anos) não podem recorrer ao humor físico, às lutas e ao corre-corre comuns em trabalhos como “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão” (1977), “Os Trapalhões na Guerra dos Planetas” (1978) e “Os Trapalhões na Serra Pelada” (1982), filmes que, já por seus cenários, previam muita ação.

Essa pegada aventuresca, típica dos filmes infantojuvenis daquele período, é substituído pelo musical, adaptação da peça teatral confeccionada por Charles Möeller e Claudio Botelho, em que poucos números se destacam ao serem transportados para a tela grande.

Nostalgia
Muito distante da energia e colorido do filme original, “Os Saltimbancos Trapalhões” não quer perder a relação com o longa de 1981, em sua musicalidade e no retorno de Didi e Dedé, mas se priva daquilo que poderia cativar as novas plateias, no humor atrevido atrelado à ternura, principalmente naquilo que Renato representa.

Didi é a possibilidade de se chegar perto do sonho, das minas de ouro e da lâmpada mágica, sem perder a pureza. E quando Renato Aragão chora de verdade numa das cenas do filme e a edição exibe uma imagem antiga do quarteto junto (com Mussum e Zacarias), é essa esperança nostálgica que nos enche novamente.