Sem a presença de Bob Dylan, que havia anunciado há semanas que não iria a Estocolmo receber o Nobel de Literatura, a honraria foi apresentada neste sábado (10) com uma performance da cantora Patti Smith, encerrando o discurso de Horace Engdahl, da Academia Sueca. 

Ídolo do rock e colaboradora de longa data de Dylan, ela cantou uma versão de "A Hard Rain's A-Gonna Fall", um dos clássicos do compositor americano. De terno, os longos cabelos grisalhos partidos ao meio, Smith fez uma performance contida até se emocionar e interromper um verso, logo pedindo desculpas. "Estou muito nervosa, me desculpem", ela disse, antes de retomar a canção, sob aplausos e arrancando lágrimas da plateia. 

Minutos antes da performance, em tom defensivo e tentando dar respaldo à polêmica decisão de entregar o maior prêmio mundial de literatura a um músico, Horace Engdahl alinhavou uma série de justificativas em sua fala. "O que provoca as maiores mudanças no mundo da literatura? Muitas vezes é quando alguém revê uma forma simples, às vezes negligenciada, não considerada arte erudita, e a transforma", disse. "Não deve causar espanto um cantor e compositor receber, portanto, o prêmio de literatura." 

Engdahl lembrou ainda que, no passado, toda poesia era recitada ou cantada por trovadores e cantores. Mas reconheceu que a raiz da obra de Dylan não está nos clássicos gregos, mas sim em sua "dedicação de corpo e alma" à música popular americana do século 20, "do tipo tocada em gramofones para pessoas comuns, negras e brancas".

Transformador 

Nas mãos do músico, segundo Engdahl, "rimas banais e piadas grosseiras" se transformaram em "poesia de ouro, se de propósito ou sem querer é irrelevante". "Suas rimas são uma substância alquímica que dissolve contextos para criar novos contextos, mal acomodados no cérebro humano", acrescentou. 

"Diante de um público esperando músicas de toada popular, lá estava um homem com uma guitarra fundindo as linguagens da rua e da Bíblia num composto capaz de fazer o fim do mundo parecer um replay supérfluo. Ao mesmo tempo, ele falava de amor com uma convicção que todos gostariam de ter." 

Reações

Tida como imune a críticas e influências exteriores, a Academia Sueca parece não ter se deixado abalar pela ausência de Dylan. "Se as pessoas no mundo literário vão chiar, é importante lembrar que os deuses não escrevem, eles cantam e dançam", disse Engdahl. "Os auspícios da Academia Sueca hão de seguir o senhor Dylan em seu caminho a novos palcos." 

Dylan havia dito à Academia que não poderia comparecer à cerimônia por causa de outros compromissos. Ele se junta a um pequeno time de autores que não foram a Estocolmo receber a honraria, embora os demais ausentes tenham apresentado motivos de saúde ou fobia de avião para a ausência, entre eles Alice Munro, Doris Lessing, Harold Pinter e Elfriede Jelinek.