“Olha, agora vai entrar o piano”, atenta o pequeno Roque, de dois anos, a uma das composições do austríaco Franz Schubert. Sim, o garoto adora música clássica, o que não é tão raro no universo infantil. A sorridente Ana Laura, de quatro anos, é fã dos movimentos de Beethoven e de composições instrumentais. É para esse público tão especial que tem surgido em Belo Horizonte cada vez mais oportunidades de mostrar que o gênero nada tem de embotado. Ao contrário, é curtição também para as crianças.

O pequeno Roque Paulino é exemplo de que nem sempre o gosto musical dos filhos é determinado pelos pais. O disco de Schubert ele ganhou de aniversário, acompanhado do livro sobre o músico. “Sempre lia a história para ele, até que um dia me pediu para ouvir o CD. Coloquei achando que ele não ia curtir. Amou e sempre pede para escutar”, conta a mãe Bárbara Braga, fã de rock.

“Ele que está me aplicando música clássica. Nunca tinha ouvido um CD todo antes”, revela. Roque gosta tanto das músicas que já está íntimo dos compositores. “Ele os chama de ‘Schubertão’ e ‘Vivaldão’ (Vivaldi). Ele fica com expressão contemplativa quando ouve essas músicas. Diferente de quando escuta outros gêneros”, acrescenta a mãe.

Na casa de Ana Laura foi diferente. Ela cresceu ouvindo a música de que os pais gostavam. “Não forçamos a barra. Ela ouviu uma vez e depois começou a pedir para escutar outras do mesmo estilo. E hoje adora música instrumental. Quando tem concertos voltados para o público infantil tento sempre levá-la”, conta o pai, Diego Pompeu.

A música clássica não é tão complexa para ouvidos mais novos. “Se a música entrar de forma natural na vida da criança, vai ser como qualquer outra (música). Ela ajuda no desenvolvimento da concentração, da fala, socialização e aguça a criatividade”, afirma o psicólogo André Paiva. 

sucesso do Jazzinho – O pianista Túlio Mourão se apresentou no CCBB-BH
Sucesso do Jazzinho – O pianista Túlio Mourão se apresentou no CCBB-BH sob olhares atentos de pais e filhos

Projetos
Termômetro do gosto crescente do público infantil é o Savassi Festival, que há dois anos incluiu na programação o “Jazzinho”, que atrai pais e filhos para diversos locais da cidade a fim de apreciar música instrumental. A ideia surgiu após Bruno Golgher, proprietário do Café com Letras e realizador do Festival, deparar com crianças fascinadas pelo piano do estabelecimento no CCBB-BH. “Decidi fazer algo para ser desfrutado por todos com músicos de alto nível. Falta mais isso em BH”. 

Ao conversar com os músicos Golgher viu caminho para o projeto. “A maioria tinha projetos voltados para crianças, mas não encontrava espaço para executá-los”, observa.

O projeto deu tão certo que o Jazzinho virou independente e anual, fora do Savassi Festival. “No próximo ano queremos fazer o festival só do Jazzinho. É chance de oferecer um amplo cardápio de alimentos para o espírito”, conclui o empresário.

Garoto se encanta com instrumentos no Jazzinho
Garoto se encanta com instrumentos no Jazzinho

Cursos de musicalização ampliam leque de gêneros

Outro termômetro do interesse do público infantil é a oferta de cursos de formação. A musicalização pode começar a partir dos seis meses de vida. “O educador se transforma na música. Ele estimula a criança por meio de performances vocais e corporais, possibilitando que a criança se expresse, seja demonstrando o que ela sente ao ouvir uma música, balbuciando ou batendo palma”, explica a diretora do Centro de Musica-lização Integrada (CMI) da UFMG, Betânia Parizzi.

As aulas duram, em média, 30 minutos, com cerca de quatro alunos por turma. Nessa fase, os pais acompanham os filhos, e saem de cena quando eles atingem três anos de idade. “O bebê tem ganho cognitivo, motor e emocional. Os mais velhos, com cinco e seis anos, apresentam refinamento motor”, esclarece Betânia.

Além do CMI, o Conservatório de Música da UFMG também possui cursos de musicalização infantil. Inscrições em janeiro.

Sempre atentos – Alunos do Núcleo Villa-Lobos aprendem a tocar instrumentos
 Alunos do Núcleo Villa-Lobos aprendem a tocar instrumentos

Concerto para bebês
Há um ano o Núcleo Villa-Lobos de Educação Musical promoveu um concerto para alunos da escola. O resultado surpreendeu tanto que professores decidiram abrir ao público. A apresentação foi no teatro da Assembleia. “Foi muito bacana, pois ocorreu a interação com as crianças que, ao final, tocam nos instrumentos e sobem no palco”, comenta o professor e diretor da instituição, Thiago Victor, adiantando que em breve haverá nova edição. 

Victor comenta que a procura pelas aulas é grande e que o gosto musical da criança depende do que elas absorvem nos ambientes que frequenta. “Não há barreiras para eles. São capazes de curtir qualquer gênero. Aqui na escola ouvem de tudo. Apresentamos um leque amplo e depois eles escolhem um caminho”. Para ele, importante é a criança se expressar musicalmente.