“Fígaro, Fígaro, Fígaro...” É difícil não se lembrar do personagem Pica-Pau ao mencionar a canção. O desenho animado, criado em 1940 e no ar ainda hoje, já fez várias gerações cantar o trecho de “Largo Al Factotum”, da ópera “O Barbeiro de Sevilha”, de Rossini. E a “Marcha Imperial”, de John Williams, da saga “Star Wars” – já se pegou cantarolando junto? Ao contrário do que muitos pensam, a música clássica não se restringe aos concertos. 

De filmes a games, vários produtos ditos populares jogam uma pá de cal na pecha de que “o erudito é coisa de elite”. E mesmo aqueles que gostam de contemplar o som de uma orquestra ao vivo não podem se queixar de falta de acessibilidade. Em BH, é possível desfrutar de obras de grandes nomes nacionais e internacionais, inclusive de graça.

“Minha filha de 6 anos adora Tom & Jerry. Temos a coleção do desenho e todas as músicas de orquestras presentes têm arranjos extremamente bem elaborados”, comenta o violinista Rodrigo Bustamante, da Filarmônica de Minas Gerais.

O maestro titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Silvio Viegas, observa, porém, que, nem sempre, as músicas chegam a esses produtos culturais conforme o original. “Às vezes, as músicas sofrem alteração de orquestração para ficar dentro da linguagem dos desenhos animados e games”, explica, ao lembrar a influência do erudito em diversos produtos que consumiu na juventude. “Lembro que, na década de 80, todos os fliperamas tocavam a música clássica. Até os anos 90, haviam desenhos recheados com essa música e não só passando um trecho dela, mas tend-a até como personagem principal. Rapsódia Húngara nº2 (de Liszt), por exemplo, tocou em Tom & Jerry, Pica-Pau e Pernalonga”, recorda.

 

Projetos infatojuvenis
Fora das telas, iniciativas como o “Concertos Didáticos”, da Filarmônica, dão oportunidade a crianças e adolescentes de se aproximarem da música orquestral. “Muitas vezes, os alunos não conhecem os compositores, mas já ouviram nos desenhos. Quando escutam esses mesmos exemplos na íntegra, eles ficam felizes porque não partem de um conhecimento do zero. Há uma identificação; apenas não tinham associado ainda a música com o universo clássico”, afirma o regente associado Marcos Arakaki.

O projeto é gratuito e as próximas edições serão nos dias 24 e 25 deste mês. Para participar, as escolas precisam se inscrever pelo e-mail contato@filarmonica.art.br. Já o “Concertos para a Juventude” é um programa para a família e tem sessão no próximo dia 16, às 11h, na Sala Minas Gerais. O ingresso custa R$ 6 e R$ 3 (meia).

A Orquestra Sinfônica de Minas Gerais conta com o “Sinfônica Pop”, que mistura música orquestral com a popular. Já no “Sinfônica ao Meio-Dia”, o público pode conversar com o maestro

Outra dica é a apresentação da Orquestra Ouro Preto com o Giramundo, dia 9, no Sesc Palladium, por R$ 5 e R$ 2,50 (meia). Em homenagem ao Dia das Crianças, a ideia é trazer o mundo lúdico e performático por meio de cenas do espetáculo “Vinte Mil Léguas Submarinas”, do grupo de teatro de bonecos, fazendo uma mistura de mídias e música erudita.

 

Rock e heavy metal bebem na fonte do erudito 

 

Silvio Viegas
Sinfônica – Silvio Viegas comanda o “Sinfônica ao Meio-Dia”, projeto gratuito que aproxima o público da orquestra


No universo adulto, também não faltam exemplos da presença do erudito. Quantas noivas já não entraram na igreja ao som da Marcha Nupcial composta por Felix Mendelssohn Bartholdy? No cinema, somente a Sinfonia nº 9, de Beethoven, já foi tocada em “Laranja Mecânica” (1972), “Minha Amada Imortal” (1994) e “Duro de Matar 5 – Um Bom Dia Para Morrer” (2013). 

“A música clássica também influencia diretamente na criação dos compositores para trilhas, tanto de cinema quanto de seriados”, afirma Silvio Viegas. “Ninguém consegue imaginar a saga ‘Star Wars’ sem o tema de John Williams, um gigante da música orquestral tradicional”, diz, por sua vez, Rodrigo Bustamante.

Influência
A influência da música de concerto, por vezes, inspirou ainda outros gêneros, como o rock e o heavy metal. “Vários temas clássicos foram adaptados para canções populares. O rock progressivo bebeu muito na fonte da música clássica, como o tecladista Rick Wakeman, que tocava piano”, cita Viegas. 

Dentro do heavy metal, Bustamante lembra de exemplos como o guitarrista sueco Yngwie Malmsteen, que foi inspirado pelo compositor clássico alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), e do Metallica, que fez trabalhos com a Orquestra Sinfônica de São Francisco, dentre outros.

ORQUESTRA MINEIRA DE ROCK

ORQUESTRA MINEIRA DE ROCK – O grupo é formado por 13 músicos, que usam instrumentos musicais diversos

Há ainda bandas que, não apenas foram influenciadas, como decidiram, literalmente, unir as forças do rock e do erudito. Esse é caso dos grupos Cartoon, Cálix e Somba. As bandas fundaram a Orquestra Mineira de Rock, que traz tanto releituras de rock como repertório de concerto. 

“Todos nós temos formação formal e experiência com partitura. E quem conhece música clássica sabe que ela tem peso, como o rock. Dá para ‘bater cabeça’ com Beethoven. Tem música clássica que muitos guitarristas ralam para conseguir tocá-la, porque não é fácil”, considera o baixista do Somba, Avelar Jr. 

Desafio
Apesar de estar disponível, o erudito ainda é visto com distanciamento pelo público geral. Para Bustamante, isso ocorre porque muitos resistem em abrir o horizonte e ter uma experiência musical diferente. “A gente sabe que a entrada para um concerto de domingo custa menos do que um show de um cantor consagrado de MPB. Além disso, num show de rock, feito para 50, 100 mil pessoas, todos conversam, gritam... Essa não é a prática do concerto, porque é feito para ser apreciado”, pontua o violinista.

Já Viegas diz que as pessoas estão sedentas por experimentar a música clássica, mas podem não estar dispostas a sair de casa para isso. “A casa se tornou um lugar muito completo para a diversão, pois tem filme, TV, jogos... O desafio dos gestores culturais é seduzir esse público ao ponto dele querer sair para assistir um concerto”, conclui.