Parceiro do diretor pernambucano Cláudio Assis em vários longas-metragens que retratam, em tons muito fortes, as mazelas sociais do país, o ator Matheus Nachtergaele define o último trabalho da dupla, “Big Jato”, em cartaz a partir de hoje nos cinemas, como o “filme infantil de Cláudio”.

Para o ator, “é uma obra para aqueles que gostam de Cláudio levarem seus filhos”, por ser uma espécie de fábula de formação, a partir da história de um garoto muito doce que consegue ver beleza nas coisas duras, com seu olhar guiado pelo pai e pelo tio, personagens interpretados por Matheus.

"(O filme) Tem os temas importantes na trajetória de Cláudio, como o desejo de liberdade. Aqui você se pergunta como ter liberdade na vida quando todo o sistema foi armado como trabalho escravo. O menino fica dividido entre o amor e a repulsa entre dois tipos diferentes, mas complementares”, salienta.

Matheus interpreta os dois personagens: o pai, que é motorista de um caminhão que limpa fossas no interior, “trabalhando com a merda do mundo”, como enfatiza o ator; e o tio artista e anarquista, “que anseia pela liberdade a todo custo, mas, pobre coitado, é o cara com um olho em terra de cegos”.

Só nessa semana que ele se atentou para o fato de o garoto ser amado por todos, apesar de o pai e o tio não se darem bem. “Todos querem o melhor para ele. No final do filme, vejo um sentido louco quando o menino diz que, apesar de ter ‘ganhado o mundo, algo dele ficou lá’. E acredito que seja o amor”.

É esse tipo de elemento que, para Matheus, faz ressaltar um lado mais carinhoso de Cláudio Assis. “Os filmes dele são potentes, inconsequentes e se prestam a um cinema de verdade. São filmes para se ver numa sala e perceber como são belos os planos, como são corajosas as atuações”, registra.

Plano de voo

Nos últimos dias, o ator não se furtou em se ver na telona, o que, para alguns colegas, é sinal de ansiedade e frustração. “Gosto de dizer que o ator de teatro paga o preço do prazer com a carne. Já o de cinema paga o preço com o susto. O que você fez se desdobra em dimensões colossais”, compara.

Ele observa que aquela pessoa na tela “não é mais você, mas sim o registro de uma construção” feita no passado. “Fui aprendendo a utilizar essas sessões para ver o que deu ou não deu certo. Se o meu plano de voo estava certo. E quando dá certo, você vai embora com o espectador”.

Matheus gostou de sua atuação em “Big Jato”, apesar da dificuldade em fazer dois papéis. “Eles foram compostos de forma muito simples, com poucos recursos. Eu tinha um plano secreto em que pudesse ser os dois lados de um mesmo cara, mas que trilharam destinos diferentes”, revela.

Outro obstáculo poderia ser a atemporalidade da história, que não tem uma localização definida. “Isso faz com que nos apeguemos menos a modismos e cacoetes de um tempo. Como o filme mostra a falta de desenvolvimento do sertão, que parece ser algo medieval, a nossa interpretação se torna mais épica”.

Quinto do ouro

Apesar de os artistas sofrerem atualmente o com o patrulhamento ideológico, criticados nas redes sociais por suas posições, Matheus afirma que nunca deixou de dizer o que pensa. “Sempre falei com liberdade, mas ultimamente alguns temas são desnecessários, como os relacionados à sexualidade”.

Para o ator, trata-se de um assunto antigo, confessando estranheza por estar gerando uma “raiva evangélica”. Já quando o tema é política, ele percebe hoje um medo dos artistas não conseguirem trabalho e serem boicotados. A sua defesa, avisa, é pela democracia. “Sinto que estamos sendo traídos em pleno jogo”.

Sublinha que, durante os governos de FHC e Lula, ele se sentia “muito cidadão”. Agora se vê com um habitante que está pagando o quinto do ouro, para um poder que não lhe representa. “É preciso fazer uma caça a esse volume de dinheiro que foi retirado do povo sistemática e comprovadamente por pessoas de todos os partidos”.