Ser solteira não é uma fase, corrige Renata Chamilet, produtora do bloco carnavalesco Baianas Ozadas. Ela explica que não está “entre relacionamentos, esperando que outro apareça”. Diferentemente do que incentiva a sociedade, para quem “toda panela tem a sua tampa”, o normal, para ela, é ficar sozinha. “Quando você está num relacionamento é que sai da normalidade, tendo que se adequar ao outro”, observa, arguta.

O fato é que, apesar de familiares e amigos ainda fazerem aquela velha pergunta “Você ainda está sozinha?”, como se o tempo maior só fosse um sinal negativo, os solteiros estão cada vez mais convictos, sim.

O tema já foi abordado por Marisa Monte, que, na música “Satisfeito”, cantava: “Quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho/Vivo tranquilo, a liberdade é quem me faz carinho”. E também norteia a trama de “Como Ser Solteira”, filme inspirado no livro de Liz Tuccillo, com estreia prevista nessa quinta-feira. A fita acompanha uma assessora de imprensa que viaja pelo mundo para descobrir como as mulheres lidam com os relacionamentos.

Em segundo plano

“A nova geração tem outras prioridades em relação a estudos, carreira, realizações pessoais e os relacionamentos mais duradouros acabam ficando em segundo plano. Cobrança sempre haverá, mas hoje, com certeza, há menos”, assinala Lucas Lauar, colaborador do site “Guia dos Solteiros”, que hoje conta com 90 mil visitas por mês. A partir de sua definição, a produtora do Baianas seria um caso exemplar de solteira convicta.

“Um solteiro convicto é aquele que não se desespera por estar sozinho. Na verdade, sozinho não. Um solteiro de verdade está sempre rodeado de amigos e de pessoas bacanas para se divertir e passar bons momentos. Sou solteiro convicto e gosto muito de viajar (tanto sozinho quanto com amigos), tenho paixão por livros, séries e filmes (por sinal, são ótimas companhias), gosto de cozinhar e, claro, de comer bem”, descreve.

Seu próprio porto seguro

Renata salienta que ter um companheiro é bom, mas não pode ser o ponto de chegada. “Ou um objetivo de vida”, enfatiza a produtora, que não muda seu status no Facebook há sete anos. Lá, consta, ainda, a palavra solteira. “Não consigo entender como ser solteira pode ser um empecilho”. Ela capricha no almoço mesmo quando está sozinha em casa. “Faço comida todo dia. Ontem (terça passada), fiz uma peixada só para mim”.

Na verdade, a única coisa que não faria “solo” é ter um filho. “Acho que essa aventura eu não encararia sozinha, pois uma criança precisa de uma estrutura familiar”, justifica.

Entre as vantagens de ser solteira, ela ressalta a maior percepção do próximo e também uma sensibilidade melhor para se ver. “Você pode ser seu próprio porto seguro”, recomenda. Uma desvantagem está na hora de trocar de carro. “É algo culturalmente masculino. Nesse sentido, ainda não evoluí”, diverte-se.

Hora de colocar os próprios interesses em primeiro plano


“Talvez depois dos 60... Quem sabe?”. É assim que a cantora Marcia Mazala responde à pergunta se pretende se casar algum dia. Com 35 anos, ela adora namorar – mas põe em primeiro lugar a “liberdade da solteirice”. Mas nada a ver com farras e todo o resto comumente associado ao “ser solteiro”.

“Minha liberdade tem a ver com dormir atravessada na cama, ir ao banheiro de porta aberta sem quebrar o romantismo, manter minhas manias, escolher quando dormir de conchinha”, ilustra. E mais: “fazer o que comer, ler, ouvir música, assistir à TV, entre outras coisas, um momento meu – que posso dividir ou não”.

Mas ela registra que nenhuma verdade é absoluta e que, apesar de o casamento não fazer sentido para ela hoje, futuramente tudo pode mudar – ou não. “Por enquanto, essa Marcia que viaja muito, trabalha muito, canta muito, namora muito – e descansa pouco e quer férias no Caribe – não se vê casada”, resume.

“Curto ficar sozinha”

A designer de interiores Fátima Infante brinca que se tornou solteira convicta pós-casamento. “Voltei a trabalhar, ter amizades, passear e a não ter compromisso”. Por um tempo, Fátima perdeu o costume de ter liberdade de horário. “Até se tenta dar liberdade ao outro, enquanto casal, mas na prática é difícil”, diz ela, que ficou casada 14 anos.

Hoje, ela, que é mãe de gêmeos, dribla de boa as cobranças. “A mãe de uma amiga chegou a dizer que não conseguiria se ver, mais velha, sozinha. Não tenho esse problema. Curto ficar sozinha, dedicando o tempo a mim mesma” Mas um segundo casamento está descartado? Não totalmente, mas... “Vai demorar um pouquinho para dar essa vontade. Posso dizer, no entanto, que não moraria na mesma casa”, assegura.

Fátima Infante

Fátima Infante: em casa, um dos passatempos preferidos da designer de interiores é ver séries no notebook

‘A sociedade tem que deixar de ser hipócrita e perceber que ser solteiro é uma opção’

Dario Centurione Barbosa não sabia fritar um ovo. Não seria um problema, assim, tão grave, não fosse o fato de ele morar sozinho em São Paulo – e não ter, tempos atrás, muito dinheiro para ir todos os dias a restaurantes. Dessa incapacidade, porém, ele enxergou um bom negócio: nasceu ali, em 2007, o embrião para o site “SOS Solteiros”, um dos primeiros guias para solteiros convictos do país, que atualmente contabiliza cerca de 15 milhões de visitas por mês.

“É aquela história da ‘casa grande e senzala’, ainda presente na classe média brasileira. Se você pode ter empregada, para quê aprender? O que é normal em países desenvolvidos, em que todo mundo sabe fazer as coisas, aqui não é”, lembra ele, que inicialmente criou um “manual de sobrevivência” eletrônico para solteiros homens, o que depois foi alterado, devido à demanda feminina.

Agora, é uma escolha

No site, estão desde textos sobre relacionamentos até dicas práticas para quem quer se virar sozinho, sem precisar ligar para a mãe atrás de ajuda. “Quando começamos, era um mercado crescente e muito mal escorado. Talvez porque, antes, ser solteiro era uma coisa negativa. Hoje, isso está mudando, devido ao que o próprio Censo mostra, com uma grande quantidade de solteiros no país”.

Ele detecta dois tipos de solteiros: um que realmente é solteiro e outro que, apesar de ter um relacionamento, prefere morar sozinho. “A sociedade tem que deixar de ser hipócrita e perceber que ser solteiro é uma opção. Antigamente não era uma escolha, pois diziam que estava ficando ‘encalhado’. Hoje, a gente sabe que um relacionamento não é para a vida toda. Tem um começo, meio e fim”, analisa.

Dario defende que, antes de dividir a sua vida com outra pessoa, é preciso se entender primeiramente. “É preciso estar feliz consigo. Ser solteiro é importante para aprendermos a digerir as coisas sozinho, além da questão prática, aprendendo a se virar. Numa relação, as pessoas têm que se somar. E não uma ficar dependente da outra”, sugere.

Dario

“Ser solteiro é importante para aprendermos a digerir as coisas sozinho”, defende