“Acho esse termo horrível”, rebate o músico mineiro Marcos Almeida ao ser convidado pela reportagem do Hoje em Dia para falar sobre a cena brasileira de indie gospel. A palavra “indie”, contudo, não é o grande problema. Marcos não gosta mesmo é da expressão “gospel”.

“Se formos usar ‘gospel’ para quem tem uma espiritualidade, então teríamos que criar uma classificação para o Roberto Carlos, porque ele é católico praticante. (…) Prefiro dizer que é música brasileira de raiz cristã”, comenta.

Parece ser uma constante o fato de os artistas da recente música gospel fomentada pelas batidas do rock, indie e folk rejeitarem um rótulo. E a contestação tem fundamento.

No Brasil, “gospel” virou denominação para separar a música cristã do restante. Neste sentido, entra de tudo, do funk ao metal. “É um amontoado de gêneros que já existiam na cultura e foram absolvidos pela igreja”, diz o músico.

Sem bandeira

Marcos Almeida – que liderou a Palavrantiga, banda que encerrou trabalhos em 2014 – segue carreira solo com o espetáculo “Eu Sarau”, no qual canta, traz poesias e abre para interação com o público.

Influenciado pelo rock, MPB e indie, a proposta é diferente dos louvores de artistas consagrados como André Valadão, Aline Barros e Fernanda Brum – geralmente, regados a pregações acaloradas às quais os fiéis vinham sendo acostumados há anos.

O mineiro afirma nem se preocupar com a doutrina que o seu público possui. Isso porque, nesse cenário, levantar a bandeira de uma religião não é a questão. Muitas músicas não falam de Deus diretamente. Leigos no tema podem demorar a perceber que as figuras de linguagens trazidas nas letras remetem ao cristianismo. As canções de Marcela Taís, por exemplo, como “Moderno à Moda Antiga” e “Menina Não Vá Desanimar”, se destacam por reforçar valores. "A proposta é justamente dar às pessoas uma outra opção de via para compreensão prática sobre decisões e sentimentos inspirados nos ensainamentos de Jesus", diz Marcela.

Já o vocalista da banda roqueira Oficina G3, Mauro Henrique, observa que o evangelho não é voltado para uma religião. “A gente nunca fala de religião, mas, sim, de viver com Cristo”, diz ele.

 

Marcos Almeida
MARCOS ALMEIDA – “Prefiro tratar a música como artesanato. Sou um simples artesão fazendo música; não vendo religião”. Foto: Gabriel Telles/Divulgação

Católico com evangélicos

Mauro, que é membro da Igreja Batista Água Branca (SP), é o idealizador do projeto Loop Session + Friends, no qual canta com Guilherme de Sá, da banda católica Rosa de Saron, e o adventista Leonardo Gonçalves.

Apesar de os três seguirem vertentes distintas na fé, Mauro garante que não foi proposital e só notou o fato no espetáculo de estreia, em agosto de 2015, em BH, quando o público o questionou. “A primeira coisa que me chamou a atenção foi a admiração musical que tenho por eles. Não pensei no conceito religioso quando os chamei. Somos amigos e a gente se respeita”. “Não queremos levantar bandeira, mas se o Eterno (Deus) quiser utilizar esses eventos com um objetivo maior, isso cabe a Ele e não a nós”, diz, por sua vez, Leonardo.

Usando de elementos eletrônicos, numa mistura de indie e folk, é ordem no Loop Session + Friends se apresentar em teatros, e assim como Marcos Almeida, o grupo abre espaço para bate-papo descontraído sobre assuntos variados com o público. A força do projeto pode ser aferida pela agenda: já está fechada até dezembro.

Cristãos têm opiniões diversas sobre visual roqueiro

Para Mauro Henrique, a “chave do Reino Eterno se chama Jesus” e isso é fator comum entre os integrantes da Loop Session + Friends. No palco, contudo, é difícil não reparar no estilo rock n’ roll de Mauro e de Guilherme em oposição ao figurino “certinho” de Leonardo. “Tenho um grande público mais tradicional entre os evangélicos e alguns reclamam da minha associação com ‘roqueiros’. Embora eu compreenda os motivos, não dou muita atenção”, afirma Leonardo.

A crítica é porque ainda há quem diga que rock é “coisa do diabo”. “Tenho plena convicção de que tanto o Mauro quanto o Guilherme são pessoas incríveis e extremamente dedicadas ao Senhor; e isto não é ‘apesar de serem roqueiros’! Na verdade, a linguagem musical pouco tem a ver com caráter. Infelizmente, nem todos entendem isso”, arremata.

SalzBand

Na brasiliense SalzBand, o rock também fala mais alto. Porém, o grupo garante não sofrer tanto preconceito devido ao estilo. “O que percebemos não é a resistência em aceitar o rock, mas de aceitar aquilo que não vem mastigado. Não forçamos ninguém a viver aquele momento de adoração, que existe nos louvores, para convencer que somos bons”, afirma o baixista Everton Rodrigues.

Mesmo assim, Everton conta que o baterista William Meira, já teve que cobrir os braços tatuados e arrancar os alargadores para se apresentar. “Isso já aconteceu algumas vezes. Mas (o estilo do William) acabou se tornando uma ferramenta de evangelismo, porque a gente consegue se comunicar com pessoas que não viam semelhanças dentro da igreja. É possível ser cristão, ter tatuagem e ser descolado”, pontua Everton.

Com seis anos de estrada, os integrantes do grupo mantêm atividades paralelas, por não quererem viver só de música. “Para você se sustentar com isso, tem que ter posturas que a gente não quer ter. Não vamos forçar a barra para vender. (...) A gente toca rock porque vive o rock, e não por estar na moda; é com sinceridade”, destaca o baixista.

 

SalzBand - banda gospel
SALZBAND – Sucesso de público, o grupo chegou a liderar o ranking geral do iTunes. Foto: Gabriel Telles/Divulgação

Dupla diz não se sentir obrigada a mencionar Deus em letras

O dueto Os Arrais, formado pelos irmãos paulistas Tiago e André Arrais, é outro que não gosta de definir um estilo musical. Tiago, contudo, admite a influência do folk, do indie e do rock nas canções. “Vivemos numa sociedade na qual tudo precisa ser caracterizado dentro de algo. E, quando se limita (o estilo musical), você fecha a janela e tira o elemento surpresa. Aceito os rótulos, mas não deixo que eles determinem o que vou fazer”, sentencia.

A resposta de Tiago é confirmada nos discos que vem produzindo. Quase sem mencionar Deus, os irmãos conseguem levar esperança em letras comparadas a poesias pelos fãs. “A Bíblia mostra várias pessoas tendo um relacionamento com Deus, mas, nem sempre, falando o nome d’Ele. Nas nossas letras, isso deixa de ser explícito porque houve um amadurecimento na nossa própria trajetória de fé, o que não deixa de ser espiritual. Viver em Jesus é muito mais interessante do que apenas falar. É mais ou menos assim que as nossas músicas são construídas”, justifica.

A obra da dupla, porém, às vezes, é vista com preconceito. Para Tiago, isso acontece porque há cristãos que não compreendem a forma como trazem a mensagem. “O rock é visto ainda como um problema (nas igrejas)”.

Os irmãos estão planejando uma turnê pelo Brasil para meados de 2016.

Conheça mais sobre o trabalho dos artistas:

LOOP SESSION + FRIENDS
 

O projeto:

 

Assista trecho de uma apresentação do Loop Session + Friends registrada por um fã:

 

Agenda

Em Minas:
11/07, no Teatro Bradesco, em BH

Próximos eventos:
15/02, no Teatro Rio Mar, em Fortaleza

16/02, no Teatro Riachuelo, em Natal

Site oficial: mauroofficial.com

 

SALZBAND

“Foi de Graça” está no mais novo disco do grupo, “Sine Cera”:

 

“Meu Coração Te Pertence” é uma das mais famosas de SalzBand:

Site oficial: salzband.com.br

 

MARCOS ALMEIDA

“Sê Valente” está no novo disco “Eu Sarau”:

 

“Eu Sarau” traz também a canção “Esperar é Caminhar”:

 

Agenda

Em Minas:
12/02, às 20h, FNAC (BH Shopping), em BH

Próximos eventos:
13/02, às 19h, IBAB, em São Paulo

20/02, às 19h, AME, em Joinville

Site oficial: omarcosalmeida.com

 

OS ARRAIS

“Fogo” é uma das mais recentes músicas dos irmãos:

 

A música “Mais” chegou a ir para o primeiro lugar de vendas no iTunes:


Mais informações: facebook.com/osarrais

 

DEPOIMENTOS:
“O que dizer quando os seus cantores favoritos estarão juntos num mesmo show? Tô aguardando o #LoopSessionFriends aqui em São Paulo”, Suh Luz (Comentário feito no Facebook do Loop Session + Friends).

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“É o mesmo raciocínio que condenava Jesus, aquele, amigo de Judas, de prostitutas e beberrões. Luto diariamente para não me desviar do caminho. E é por isso que faço questão de caminhar ao lado dos que são escarnecidos”, Estêvão Queiroga (Post do Facebook do músico, que se destaca no indie gospel brasileiro, sobre a sua canção “Bom e Mau”).

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“Penso que uma obra de arte precisa se comunicar com alguém que se reconhece dentro dessa obra a tal ponto que, por vezes, o indivíduo sente-se até mesmo o autor desta; essa música (‘Sê Valente’), sem sombra de dúvidas, conseguiu isso”, Raphael Almeida (Comentário feito no Facebook de Marcos Almeida).

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“Já tive várias experiências de adoração com ela (a música ‘Meu Coração Te Pertence’). Glória a Deus pelo ministério de vcs. Têm estilo único e são uma referência pra nossa juventude”, Evelyn Lara (Comentário feito no Facebook da SalzBand).

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“O que os Arrais escrevem não são letras, (nem músicas), são simples poesias que Deus dá a eles e o próprio fala conosco em cada uma delas”, Cesar Junior (Comentário feito no Facebook de Os Arrais).

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“Sinto algo diferente ao acompanhar vc pelas redes sociais, sinto sinceridade em suas palavras, sinto verdade em cada música que vc canta. Não sei explicar, é diferente... Que Deus continue te guardando e lhe dando fôlego de vida para continuar”, Débora Barbosa (Comentário feito no Facebook de Marcela Taís).