Maju Coutinho estudou na Escola Islâmica Brasileira, em São Paulo, até os 15 anos. Quando tinha 6 anos, chegou a desacreditar na convivência pacífica ao descobrir o racismo. “Uma garota me encarou para dizer: ‘Você tem tudo preto na vida. Seu cabelo, seu carro, sua casa’. E, olhando para outras crianças, determinou: ‘Não brinquem com ela, porque tudo nela é preto’.” O sofrimento foi inevitável, mesmo sendo filha de dois professores que militavam pelos direitos dos negros e que a criaram para se blindar diante de intolerantes.

Aos 37 anos, bem-sucedida, a jornalista fez o primeiro discurso de autoafirmação que o Jornal Nacional, da Globo, pôs no ar. No episódio, os colegas William Bonner e Renata Vasconcellos lançaram a hashtag #somostodosmaju, que se espalhou freneticamente pelas redes sociais. O caso está na Justiça, e os criminosos que a mandaram voltar para a senzala e comer bananas como uma macaca ainda não foram punidos.

De lá para cá, a jornalista vem sendo tomada como modelo de audácia. Naquele dia, preocupada, ligou para a mãe. “Ela se abalou, ficou mal. E eu fechei a porta do quarto e chorei abraçada com o meu marido (o publicitário Agostinho Paulo Moura). Um choro por me sentir também acariciada por milhares de pessoas que se solidarizaram.”

Ela se alegra quando crianças negras contam que querem ser como ela. “Ou como Lázaro Ramos, Taís Araújo, Zileide Silva, Glória Maria...”

Confira alguns trechos da entrevista:

Sobre arsenal de ofensas recebidas em julho

“Muita gente imaginou que eu estaria chorando pelos corredores (...) Eu já lido com essa questão do preconceito desde que me entendo por gente (...) Fico muito indignada, mas não esmoreço, não perco o ânimo (...) A militância que faço é o meu trabalho, com carinho, dedicação e competência”.

Sobre a força para as negras

“Por anos, me submeti a um rito para ser aceita: esquentava no fogão um pente de metal e alisava o cabelo. Fora dos pequenos círculos, era difícil assumir a identidade. Precisa coragem para usar o crespo, símbolo de estar à margem”, lembra. “Nos anos 1990, vi na capa da revista Raça uma negra com ar decidido, de tranças afro, enormes e lindas, e falei: ‘Eu quero isso’. Funcionou como uma permissão para ser eu mesma.”

Sobre casamento e filhos

“Ficamos muito em casa. Agostinho (faz filosofia), precisa estudar”. Pode ser que seja mãe, mas não agora. “E, se não vier, ok. Já me sinto realizada afetiva e profissionalmente.”