Quando as mulheres estavam à frente da ação no cinema, a partir da década 70, era impossível não ver nas personagens uma “imitação” de algum herói masculino.

A feminilidade só aparecia na sensualidade usada como uma arma a mais para enfrentar perigosos bandidos. Katniss inaugurou uma nova fase, como protagonista da franquia “Jogos Vorazes”, cujo último capítulo – “A Esperança: O Final” – estreia nesta quarta (18).
 

“Ela não deve nada a nenhum outro herói de ação”, observa o jornalista André Fonseca, especialista na matéria, que antes podia ser definida com a equação “testosterona + lutas = filmes de heroísmo”. Interpretada por Jennifer Lawrence, Katniss é a cara do movimento feminista de hoje, segundo Henry Bernardo, outro estudioso de HQs e filmes de ação. “A personagem tem uma liderança nata, protegendo a sua família com honradez”, salienta Henry. O momento realmente é propício para as heroínas. Scarlet Johansson é a Viúva Negra em “Os Vingadores”, única representante feminina de peso ao lado de Capitão América, Thor e Homem de Ferro – e com a atriz recebendo o mesmo salário de seus companheiros de elenco.

 

Quadrinhos

Na verdade, as mudanças já ocorrem há duas décadas. Mais notadamente nas histórias em quadrinhos. “O universo masculino ainda é maioria, mas elas vão alcançando, aos poucos, maior destaque. A diferença de Katniss para Capitã Marvel e Mulher Maravilha, que têm revistas próprias, é que todas as vantagens que consegue vêm de seu esforço. Não há nenhum poder caído dos céus”, analisa André.
 

Henry avalia que há ainda muito espaço para elas. O fato de ter, nas HQs, várias mulheres roteiristas trabalhando nas principais editoras (DC Comics e Marvel) já é um reflexo dessa tendência. Gail Simone, que esteve em BH no último final de semana, acompanhando o Festival Internacional de Quadrinhos, contribuiu para esse novo quadro.
 

Autora dos textos de Mulher Maravilha, Batgirl e Red Sonja, a quadrinista registra que o mercado finalmente percebeu que as mulheres consomem revistinhas e filmes de ação. “Se ele criar personagens para o público feminino, elas irão corresponder”, destaca Gail, para quem há muito o que evoluir, não só no campo da representação feminina.
 

“Durante muito tempo (o universo HQ) vem trabalhando com pessoas brancas e heterossexuais. Participo de convenções no mundo todo e está cada vez mais óbvio que os personagens são diferentes das pessoas na plateia. No caso do quadrinho, como se trata de uma mídia ‘barata’, ele tem o dever de romper barreiras, pois não depende de grandes orçamentos como o cinema”, pondera Gail.

 

Segredo do sucesso

Para o crítico Roberto Cunha, o protagonismo feminino não explica o sucesso de “Jogos Vorazes”. As gordas bilheterias têm nome: Jennifer Lawrence. “Ela é um caso isolado de atriz que mostrou atitude espontânea diante da fama, o que acabou colando na personagem, que carrega essa rebeldia para enfrentar o sistema”, pontua o jornalista, que cita imitações de JV que não tiveram a mesma recepção, como “Instrumentos Mortais”, “A Hospedeira” e “Dezesseis Luas”.

 

 

'Jogos Vorazes' aposta no protagonismo feminino