GRAMADO – Lúcio Cardoso não sai da cabeça do diretor Luiz Carlos Lacerda, com quem teve um affair há mais de cinco décadas. O escritor mineiro de obras como “A Crônica da Casa Assassinada”, falecido em 1968, retorna como um fantasma na vida do realizador, às vezes de forma literal, como revela o projeto “Lúcio e Murilo, Murilo e Lúcio – O que Seria deste Mundo Sem Paixão”, que começa a ser filmado em 20 de setembro, em Juiz de Fora.
 
O longa registrará um curioso encontro fantasmagórico entre os dois amigos, no Brasil de hoje, terceira parte de um ciclo dedicado ao antigo amor, que parece longe de terminar. “O produtor Cavi Borges, que é a pessoa que mais faz filmes nesse país, me perguntou se tinha algum projeto ligado a Juiz de Fora. Menti para ele, mas acabei me lembrando dessa relação entre Lúcio e Murilo e fiz um roteiro em cima disso”, registra.
 
Presente na serra gaúcha, onde exibiu “Introdução à Música do Sangue”, baseado em argumento de Lúcio, dentro da mostra competitiva do 43º Festival de Cinema de Gramado, Luiz Carlos já anuncia um quarto projeto: a adaptação de “Com os Olhos no Chão”, que deverá ser dirigida por Rafael Conde. O filme que iniciou essa investida cinematográfica na obra e na vida do autor de Curvelo foi o documentário “A Mulher de Longe”, de 2012.
 
“Tenho uma forte relação com Minas, não só por causa de Lúcio, mas também porque há mais de dez anos realizo oficinas na Mostra de Cinema de Tiradentes, que são de onde eu tiro boa parte de minha equipe técnica”, destaca o cineasta, que tem no currículo ainda filmes como “Leila Diniz” (1987), “For All – O Trampolim da Vitória” (1997), “Viva Sapato!” (2003) e “Casa 9” (2011).
 
No caso de “Introdução à Música do Sangue”, esse vínculo resultou em filmagens nas cidades de Cataguases e Leopoldina, na Zona da Mata, e também numa bonita homenagem ao pioneiro do cinema, Humberto Mauro, nascido naquela região. É uma história pastoral, recheada de momentos bucólicos sobre a vida do homem no interior, embora interrompida pelas leituras religiosa-psicológicas de Lúcio.
 
Luiz Carlos não sabe exatamente o que permaneceu no filme do argumento original e o que ele acrescentou ao escrever o roteiro, definindo essa mistura como uma “pororoca”. Mas o diretor não abriu mão do clima de opressão sexual que definiu a literatura do autor, ao mostrar uma garota que tem suas primeiras experiências amorosas num ambiente de grande conservadorismo, onde a chegada da energia elétrica é motivo de conflito.
 
A garota é interpretada por Greta Antoine (a Inês de “Chiquititas”), escolhida quando faltava uma semana para o início das filmagens. A primeira opção era Bruna Linzmeyer, cujos olhos azuis “de papagaio” assustaram o cineasta. Devido à agenda apertada da atriz, Bruna teve recusar e o segundo nome recaiu sobre “uma louca, que me encheu o saco ao me pedir storyboard da cena de sexo”.
 
Já para fazer o par romântico, "Bigode", como Luiz Carlos é chamado no meio cinematográfico, pensou primeiramente em nomes conhecidos como Bruno Gagliasso e Daniel de Oliveira, que estavam às voltas com outros trabalhos na época. A sugestão de Armando Babaioff partiu de um integrante da equipe, que tinha tomado contato com o trabalho do ator no teatro. 
 
Babaioff viu no personagem do capataz uma forma de libertação, após mergulhar num papel mais fechado, em “Prova de Coragem”, de Roberto Gervitz. “Quando cheguei à fazenda, logo pedi para um funcionário selar um cavalo para mim. Perguntei se poderia sair com eles, para contar gado. Voltei seis horas depois, acabado e assado”, recorda o ator, que, em “Introdução”, contracena ainda com Ney Latorraca e Bete Mendes.