Em Minas, dificilmente se encontra um artista de reconhecimento que não tenha usufruído de um dos programas do BDMG Cultural. A instituição promove premiações a jovens instrumentistas, estimula curtas-metragens, abre espaço para exposições de artes visuais e investe num elogiado coral. Projetos que estão com orçamento mantido, mesmo em tempos de crise.
 
Em entrevista ao Hoje em Dia, o jornalista e presidente do BDMG Cultural, João Paulo Cunha, analisa a situação da promoção cultural no Estado e no Brasil. Ele fala das criações coletivas em Minas, tanto no teatro como na música, o que, aliás, são temas que vê com grande otimismo.
 
Em linhas gerais, qual é a diretriz que norteia o BDMG Cultural?
O BDMG Cultural é um instituto ligado ao Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, que está em seu 26º ano. Ele desenvolve ações ligadas a várias áreas da cultura de Minas Gerais, como música, audiovisual, artes plásticas, teatro... A ideia é que seja um instituto que valorize a cultura mineira e crie instrumentos de fomento de apoio a manifestações culturais. Ao mesmo tempo, o instituto desenvolve projetos próprios, que são estratégicos para a cultura daqui, além de apoiar projetos de terceiros por meio da Lei Municipal de Incentivo.
 
O BDMG Cultural encerrou, no mês passado, a 15ª edição do prêmio BDMG Instrumental, iniciativa que valoriza músicos mineiros em uma seara intrincada. É uma bandeira que será mantida hasteada?
Se a gente pegar os grandes músicos instrumentistas, quase todos passaram, em algum momento, por algum programa do BDMG. Acredito que criamos aí um arco histórico, que dá para comparar, inclusive, com a evolução e as múltiplas linguagens que temos no campo da música instrumental. Nós devemos continuar investindo nessa área da música, tanto valorizando como dando condições para que jovens instrumentistas se desenvolvam.
 
A propalada crise que vem atingindo também o setor cultural impacta de alguma maneira as iniciativas previstas para este ano?
O instituto trabalha com recursos próprios, repassados pelo banco, para desenvolver as ações. A manutenção dos repasses se manteve. Então, todos os projetos estão mantidos e alguns devem ganhar alguma ampliação.
 
Minas Gerais é sempre apontado como celeiro cultural. Acha que esse celeiro continua em incessante renovação? Quais nomes mineiros apontaria entre os ditos “novos” que vêm roubando sua atenção?
Tenho acompanhado com muito interesse e com muita alegria a cena cultural aqui de Minas Gerais. É claro que a gente tem que manter um certo distanciamento para saber que existem muitas dificuldades, mas a criatividade quando aparece mostra que, de fato, é capaz de vencer muitas barreiras. Sem querer citar nomes, pois temos dezenas, no âmbito das canções, temos um movimento chamado “Cantautores”, que são cantores que compõem canções com letras e músicas. Eles têm mostrado que possuem uma música criativa, rica de referências, contemporânea e moderna e que está, inclusive, ampliando a tradição da música mineira, fazendo alianças com outras linhas estéticas bastante inovadoras. São as apostas na novidade e no experimentalismo que me faz muito otimista com a arte que está sendo produzida aqui em Minas Gerais.
 
Em seu livro “Em Busca do Tempo Presente”, no texto “A Lógica do Lixo”, você inicia com a seguinte frase: “A cultura brasileira anda mal”, prosseguindo com uma análise sobre a transformação da cultura em indústria de produtos consumíveis. Esse texto foi publicado em 2010 e, de lá para cá, vislumbra alguma luz no fim do túnel?
Existem importantes manifestações culturais criativas e experimentais que renovam a cena. Ao mesmo tempo, temos um mercado e uma indústria cultural muito marcada por produções de baixa qualidade visando apenas o lucro. Se a gente imagina a cultura como sendo apenas o sucesso de público, de fato, a gente pode dizer que a cultura brasileira vai mal e que o lixo está mandando. Mas se a gente consegue perceber que existe também dezenas ou centenas de grandes manifestações culturais de alto nível buscando a sua representação na sociedade, a gente pode perceber que a cultura brasileira está viva, está rica. Porém, ela precisa ser apoiada e incentivada, de instrumentos importantes de fomento para que, de fato, possa se manifestar e ganhar o reconhecimento. Então, em termos de diagnóstico, a gente tem que ser um pouco pessimista com relação a força da indústria, que, de certa forma, pode homogeneizar nivelando por baixo. Mas não podemos esquecer que essa base de criatividade continua pulsante na cultura brasileira, inclusive em muitos lugares onde a gente não costuma muito olhar, pois tendemos a concentrar a visão cultural apenas nos grandes centros, sendo que a arte está pulsando em todo o tecido social, como nas periferias das grandes cidades e no contexto rural.
 
Neste mesmo texto, você cita: “onda criativa que se eleva na contramão da indústria”. Pelo o que podemos deduzir, você está se referindo a construções coletivas de projetos. Como assiste hoje ao crescimento de coletivos e de maneiras alternativas para concretizar projetos culturais?
Tenho um olhar otimista em relação à capacidade de diversificação das formas de manifestação artística. Vemos um fortalecimento do teatro de grupo aqui, em Belo Horizonte, por exemplo, conseguindo conquistar espaços importantes, montar sedes, fazer trabalhos de repertórios bastantes ricos e interessantes. Na cena musical, vemos uma capacidade grande de agregação de linguagens, de pessoas que têm essa capacidade de criar coletivos que não são apenas para fazer a sua arte, mas para conquistar espaço, participando de feiras no Brasil e feiras internacionais. Vemos músicos independentes aqui com capacidade de levar a sua arte para a Europa, Estados Unidos, Ásia, Japão... Então, essa capacidade de se pensar vivendo num universo que é mais amplo, mais complexo tem mostrado que essa alternativa de viver em busca desses coletivos, dessa força mais independente, tem ganhado espaço na sociedade, o que é positivo.
 
Uma parceria da Secretaria de Estado da Cultura com a Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig) promete reabrir dezenas salas de cinema por várias regiões do Estado. O que acha a respeito deste grande investimento?
No interior, muitos lugares não têm shopping e as salas (de rua) foram simplesmente fechadas. Tem uma característica quase mítica de ir ao cinema assistir (filme), que ajuda a formar público e dá uma consistência maior à cadeia produtiva do cinema e isso só é possível se a gente resolver o problema da distribuição. No Brasil, hoje, tem muito mais produção que distribuição. Durante muito tempo se pensou que seria muito difícil arranjar recurso para fazer cinema por ser uma arte cara por sua característica tecnológica. Hoje, nós já temos mecanismos que permitem uma produção relativamente significativa. Mas grande parte desses filmes não estão chegando até as pessoas porque está faltando espaço para exibição. Por isso, acredito que se a gente conseguir reabrir essas salas, trazer de novo às pessoas para esse movimento de fazer do cinema um programa e algo que faça parte da vida delas, a gente vai fortalecer o cinema.
 
A Oi Futuro quebrou o contrato com o Circuito Cultural Praça da Liberdade... O que acha dos rumos que o circuito está tomando?
A questão do Oi Futuro é uma questão que tem que ser compreendida também no seu sentido histórico. Aquele teatro (Klauss Vianna) estava lá como uma contrapartida, devido à perda de um espaço importante que era o Cine Metrópole, na rua Goiás com rua da Bahia. O Oi Futuro se viu na responsabilidade, que é real, de manter aberto esse centro de cultura. A primeira proposta foi ir para o Solar Narbona e o Palacete Dantas e parece que, por uma questão de investimento e busca de um espaço melhor, não foi aceito. O que a gente não pode perder é que esse espaço seja implementado na cidade. Sobre o Circuito Cultural, acho que é bastante complexa a situação. Quando o circuito foi criado, fui um crítico muito grande deste tipo de projeto. Sei do sucesso que ele é de público e a capacidade que ele tem de atrair as pessoas, como ele se firmou na cidade como um ponto de atração tanto de turistas quanto da própria população de Belo Horizonte. Mas acho que foi um projeto que foi criado de uma forma concentradora. E eu sempre defendi que a cultura tem que estar em todos os espaços da sociedade. Acho muito bom a gente ter dois, três, cinco, dez centros culturais de alto nível, mas não precisava estar todos no mesmo lugar. Posto que já estão, acho que eles têm que funcionar com o máximo de qualidade possível atendendo à demanda de cultura do povo. É importante que o circuito seja cada vez mais gerido conforme o interesse público e não como várias manifestações de empresas privadas e cada uma com o seu interesse particular. Por isso, achei significativo que o governo transferisse a responsabilidade do circuito para o Iepha, que é um órgão público, para que a gente tenha uma gestão efetivamente pública, para o desenvolvimento do público de Belo Horizonte e da sociedade mineira como um todo.