Já virou hábito: todo final de ano, Affonsinho se recolhe junto a seu violão e ao “gravadorzinho cassete” (“aquele que nem existe mais”). É hora de deixar a inspiração dar o norte. Melodias registradas, ele deixa o resultado no estaleiro por três, quatro dias. Quando retorna a ele, aí sim, seleciona o que de fato vale a pena dar sequência. É quando vem a fase que chama de “transpiração” da canção. O resultado de mais um ciclo assim, ele apresenta neste sábado (9) ao público, quando lança, no Teatro Bradesco, o disco “Lá de Um Lugar”.
 
Detalhe: não se trata de apenas mais um disco na carreira profícua do mineiro, e sim do seu décimo trabalho autoral. Não bastasse, Affonsinho festeja o fato de, por não ter que ceder a pressões do mercado, poder transitar por todas as searas musicais que o atraem. Em “Lá de Um Lugar”, a pegada folk dá a liga, mas convive harmoniosamente com outros estilos.
 
“Queria trabalhar mais a guitarra do blues e o folk abre essa porta, o Eric Clapton já fazia isso com ‘Wonderful Tonight’, por exemplo. Mas gosto mesmo é de misturar minhas influências: bossa nova, Caetano, Gil, BB King, Beatles, folk, blues...”. A faixa “Est Pour Te Dire”, por exemplo, ecoa Henri Salvador, cujas músicas têm sido recorrentes em seu CD player. “Ele é genial”, decreta.
 
Amizade
 
Mas se o folk conduz os trabalhos em termos de sonoridade, nas letras, a amizade dá a tônica. “Me considero um cara de sorte por ter facilidade em fazer amigos”, festeja ele, acrescentando que muitos desses foram arregimentados entre os fãs. Inclusive de outros estados. A pequena turnê que empreendeu ano passado inspirou fãs de vários estados a formarem um grupo nas redes sociais. Alguns dos integrantes, aliás, estão vindo a BH para o show de logo mais. “Tenho que estender o tapete vermelho a essa galera, é muito gratificante. E sei que não estão vindo só pela música, mas pela amizade que foi construída”.
 
E em tempos de beligerância nas redes sociais, Affonsinho também dá um belo recado em faixas como “Que Diferença Faz”.
 
Affonsinho – Neste sábado (9), 21h, no Teatro Bradesco (Rua da Bahia,2.244). Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia). Leia mais no hojeemdia.com.br
 
Sobre o artista
 
Affonsinho nasceu em BH, mas passou boa parte da infância no Rio de Janeiro. Lá recebeu a influência da música carioca - motivo pelo qual muitos definem seu som como uma espécie de "bossa pop", já que apresenta forte natureza do ritmo criado por João Gilberto, mas sem deixar de lado a guitarra.
 
Jornalista por formação, o artista já se apresentou como ator na série "JK", da Globo, no qual interpretou César Prates, amigo músico do ex-presidente. Na década de 1980, o cantor fundou e integrou o grupo de rock Hanoi Hanói, que frequentou com assiduidade o dial por meio de sucessos como "Totalmente Demais", de Arnaldo Brandão.
 
No novo disco, Affonsinho mostra outra vibe: canta, com delicadeza, temas de que o ser humano está carente, como o amor, a paz, o sossego, a esperança e as alegrias da vida. No álbum o cantor não deixa de trazer à baila questões que estão em voga atualmente, como o preconceito que insiste em manter um olhar primitivo na sociedade.
 
O novo disco
 
Com levada "pra" cima, o folk “No Carinho” abre o álbum e indica a tendência geral do disco. Música de Affonsinho para letra de Paulinho Pedra Azul, única parceria do trabalho, “Um Novo Tom” é a balada mais pop do álbum e traz um caloroso solo de guitarra. O refrão promete fazer sucesso nos shows do artista, assim como os hits “Vagalumes”, “Enfeitiçado” e “Sas Sies Sions”.
 
A faixa que dá nome ao trabalho é uma balada folk suave e delicada. A letra é dedicada aos amigos, que sempre chegam “lá de um lugar” trazendo carinho, esperança e alegrias para serem divididas. Lembra as doces canções de James Taylor. Filosofando sobre o amor, a faixa “O Amor Me Perguntou” tem uma melodia leve, mas com um solo de guitarra vigoroso, bem no estilo de David Gilmour, do Pink Floyd.
 
Depois de compor em inglês e espanhol e gravar em italiano, Affonsinho envereda pelo francês na música “Est Pour Te Dire”, a única bossa do novo disco, inspirada nas canções e interpretação do mestre Henri Salvador (1917-2008), cantor, compositor e guitarrista francês de jazz, considerado precursor da Bossa Nova.
 
A faixa seguinte é “Que Diferença Faz”, mais um folk/pop/rock, bastante animado, cuja letra fala sobre os tristes preconceitos que ainda teimam em bater ponto por aí. Tema sempre atual e já abordado por Affonsinho em músicas como “Tanto de Coisas” e “Deixa”, gravadas, respectivamente, nos discos “Zague Zeia” (2011) e “Trópico de Peixes” (2013).
 
“Todo Mundo Quer” é uma balada com leve pegada bluesy e letra sobre a felicidade, coisa que todo mundo quer e procura. Autobiográfica, contando como Affonsinho sempre ligou sua vida a letras e melodias, a faixa “Música e Letra” é mais uma que lembra as boas baladas de James Taylor influenciadas pelos vocais suaves da gravadora Motown. “Dicionários”, por sua vez, é puramente folk music. A letra fala sobre o pseudo-intelectualismo e a falta de alegria e amor.
 
Encerrando o disco, “Love You, Blues” é o primeiro blues gravado por Affonsinho e mostra porque ele é considerado um dos melhores guitarristas do gênero. Na faixa instrumental, cada chorus de solo homenageia alguns de seus mestres: B. B. King, Albert King e Stevie Ray Vaughan; Freddie King e Eric Clapton; Jeff Beck, Roy Buchanan, Johnny Winter e Albert Collins; David Gilmour, Robin Trower e Jimi Hendrix. 
 
Este é o quinto álbum de Affonsinho depois de se enveredar em carreira independente, a partir de 2010. Sua discografia conta com os álbuns “Tudo Certo?” (1994), Sambando Assim Meu Rock’ n’Roll (1998), “Zum Zum” (2001), “Belê” (2006), “Meu Plano” (2009), lançados simultaneamente no Brasil (Dubas/Universal) e no Japão (NRT), e dos independentes “Voz e Viô” (2010), “Zague e Zeia” (2011), “Trópico de Peixes” (2013), “Depois de Agora” (2013) e “Lá de um Lugar” (2015). Além desses dez discos autorais, o artista lançou dois discos como intérprete: “Esquina de Minas” (2002) e “Esquina de Minas – Dois Lados da Mesma Viagem” (2003).
 
As dez faixas de “Lá de Um Lugar” poderão ser conferidas ao vivo no show do Teatro Bradesco, ao lado de outras músicas que marcaram a carreira de Affonsinho. Ele dividirá o palco com Frederico Heliodoro (baixo), Felipe Continentino (bateria) e Christiano Caldas (teclados), que participaram das gravações.