Basta uma olhada rápida pelo material gráfico do novo disco da cantora portuguesa Carminho para perceber que a artista está muito interessada em intensificar o trabalho em conjunto com nomes do lado de cá do Atlântico. Nos créditos de “Canto” (Som Livre), estão Carlinhos Brown, Dadi Carvalho, Jaques Morelenbaum, Jorge Helder e Naná Vasconcelos. Sem contar a presença de Marisa Monte como cantora e compositora, ao lado de Arnaldo Antunes, da faixa “Chuva no Mar”, e uma versão para “O Sol, Eu e Tu”, de Caetano Veloso.
 
Mas é só colocar o terceiro disco da cantora para rodar para compreender que a parceria com tantos músicos d’além-mar não mudou a direção de Carminho, que faz questão de cantar e divulgar a tradicional música portuguesa, em especial o fado. “Quando vou ao Brasil, fico sempre arrebatada por uma cultura tão diferente, embora tenhamos a mesma língua. Convidei pessoas com linguagens tão diferentes para virem à minha música”, contou a artista ao Hoje em Dia, por telefone, durante sua passagem pelo Brasil.
 
Todos os convidados para participar do álbum já tinham algum laço de amizade com Carminho, que tem realizado shows no Brasil com boa frequência nos últimos anos.
 
Com Marisa Monte, o encontro foi bastante emocionante para a cantora de Portugal. “Ela me abriu as portas de casa de maneira muito generosa. Começamos a ouvir as composições dela e Marisa me disse: ‘não é você que vai escolher a canção, mas a canção que vai escolher você’. Quando começamos a cantar a inédita ‘Chuva no Mar’, vivemos um monto forte e mágico. Vimos que tudo fazia sentido, havia uma empatia humana e artística”, lembra Carminho.
 
Tradição
 
O intercâmbio com os ídolos e amigos brasileiros não foi suficiente para que a cantora se aventurar por linguagens diferentes. Ela faz questão de reforçar que é uma cantora de música tradicional, e não pretende mudar isso. Mesmo que dialogue com artistas que não fazem parte do universo tradicionalista lusitano, a ligação com a tradição não vai ser quebrada.
 
“Tenho orgulho de ser fadista, de apresentar meu país, minha origem, minhas escolhas. Interessante ter a junção entre tradição e novidade, podendo ser atual no meu tempo. Mas vou continuar cantando poemas que gosto, que consigo compreender, sem pretensões de mudar o fado”, diz Carminho, explicando que o fado voltou a ser feito e consumido com intensidade após a virada do século.
 
A cantora, de apenas 30 anos, faz questão de reforçar suas escolhas para que não seja confundida com a corrente artística que recebeu a alcunha de “novo fado”. “É o gênero que nos identifica como povo. O fado não prende, ele liberta. Eu conheço o mundo inteiro graças ao fado”, conclui.