Latas, sucata, papelão, tubos de PVC, chaves e radiografias velhas. Materiais que teriam como destino provável a lixeira tornam-se matéria-prima para a construção de instrumentos musicais, como pau de chuva, paiá de chaves e roncador. O local da transformação é o Viaduto das Artes, galeria de arte criada sob o viaduto Engenheiro Andrade Pinto, no Barreiro.

A atividade é uma das oficinas oferecidas gratuitamente no espaço cultural. Desde 2013, crianças de escolas da região aprendem sobre os sons e conhecem diversas possibilidades de utilização de materiais recicláveis.

Criador da oficina educativa, o músico Vilmar de Oliveira conta que a ideia partiu da constatação de que muitas crianças não possuem condições financeiras para ter um instrumento e acabam não desenvolvendo aptidões musicais. “A oficina vem democratizar o acesso à música. As crianças aprendem a fazer instrumentos, utilizando todo tipo de material reaproveitável e outros disponíveis na natureza, como casca do fruto da sapucaia”, explicou Vilmar de Oliveira.

Ao moldar as novas peças, as crianças também compreendem melhor princípios básicos da música, como timbre e intensidade, segundo Vilmar.

Aprendizado

Lição aprendida pelos estudantes da Escola Municipal Antônio Aleixo, que participaram da oficina de construção de instrumentos. A atividade foi um complemento para 16 alunos da 3ª, 4ª e 5ª séries.

Isabelle Ferreira, de 9 anos, aproveitou ao máximo a oportunidade. “Aprendi que a gente pode extrair vários sons, usando coisas variadas. Até o som do mar é possível criar com um tambor velho e chumbo”, disse a menina, que conseguiu construir um paiá de chaves. Já Arthur Aguiar, 11 anos, usou um tubo de papelão, um pedaço de radiografia e muita fita colorida para fazer um roncador. “Achei muito legal”.

Outros estudantes também criaram paus de chuva, instrumento indígena que reproduz o som da chuva, utilizando tubo de papelão, palitos e arroz. “É bem interessante. Com coisas que a gente nem imaginava utilizar dá para fazer vários sons”, afirmou Isadora Felix Ferreira, 10 anos.

Prazer

Para a monitora de música Lúcia Helena Pimentel Leite, as oficinas oferecidas no Viaduto das Artes contribuem para o aprendizado das crianças. “É muito bom. Elas aprendem bastante e sempre gostam de vir aqui. Este ano, já teve a oficina de contação de história. Elas adoraram”, afirmou.

‘Não Confie em Ninguém com Mais de 40’ será aberta amanhã

Quem passa pelo Viaduto Engenheiro Andrade Pinto não imagina que ali embaixo existe uma galeria de arte com programação aberta a todos. O espaço, inaugurado em 2014, já foi uma área ocupada por moradores de rua e usuários de drogas. Hoje realiza exposições periódicas e oferece oficinas gratuitas de esculturas, instrumentos e contação de histórias.

“Aqui era um Sacolão ABC abandonado. Limpamos e transformamos em espaço cultural aberto”, conta o artista Leandro Gabriel, criador e coordenador do viaduto.

Em novembro do ano passado, o local recebeu a exposição “Catadores”, com trabalhos de Gabriel, Daniel Moreira, Felipe Ratton e Nísia Camargo, sobre o universo dos catadores de papel e sucata. Em dezembro, a exposição “Invólucro”, também de Leandro, foi a primeira apreciada pelo gari João Batista de Oliveira, de 40 anos. “Nunca tinha entrado em uma galeria. Gostei muito”, disse.
 
A partir de amanhã, o espaço recebe exposição “Não Confie em Ninguém com Mais de 40”. Trabalhos de 24 artistas em diferentes plataformas (vídeo, fotografia, pintura) serão expostos em uma dimensão única de 40X40cm. Os trabalhos podem ser vistos até 8 de maio.

Apoio

Hoje, o espaço possui uma ampla galeria de 260 m², biblioteca, jardim com esculturas e ateliê. No entanto, para que tudo isso continue à disposição da população, são necessários novos parceiros. “Os projetos foram aprovados na Lei Estadual de Incentivo à Cultura, mas ainda não temos recursos captados”, afirmou Leandro. Os espaços externo e interno da edificação contaram com patrocínio da Vallourec e Via Shopping Barreiro. A cessão do espaço foi realizada pela prefeitura.