O ato de ver e ouvir o outro é o grande propulsor do novo trabalho do artista visual belo-horizontino Gui Cunha.
“Memórias da Vila” talvez seja a primeira grande e propagadora mostra fotográfica que revela ao público de Belo Horizonte histórias dos mais antigos moradores do Aglomerado da Serra.

Na medida que pretende aproximar o belo-horizontino da própria identidade, o trabalho será exposto em três estações do metrô da capital. Adiante ocupará prédios no Centro e, no primeiro semestre do ano que vem, contará com um livro onde, além das imagens produzidas por Gui estarão textos da jornalista Joana Tavares.

“Sempre me incomodou o fato de vermos a cidade a partir de marcos oficiais que definem uma estrutura de poder absurda porque reduz uma cidade inteira a pontos arquitetônicos. E isso é assustador porque exclui todo conjunto de realidades que fazem parte desse grande complexo que é a cidade”.

“Memórias da Vila” surgiu, portanto, a partir do gesto de conhecer a cidade. “E o que me toca muito profundamente é que na história das cidades brasileiras não se inclui as histórias das favelas, é um processo totalmente alienante porque é necessário pensar o que é e quem são o Brasil de fato e foi isso que me mobilizou: conhecer as pessoas. Todo esse trabalho é resultado do ouvir a história de vida de pessoas (re)conhecidas pela comunidade e, de alguma forma, tentar ser um canal de distribuição dessa realidade”, explica o artista de 33 anos, um dos criadores e diretores do Festival Internacional de Fotografia.

Das valiosas parcerias que fez ao longo dos quatro anos – tempo que se dedica ao projeto – Gui contou com a ajuda da moradora e agora amiga, Kelly Cristina da Silva, de 30 anos. “Tenho muito orgulho e alegria por ter contribuído com o projeto. É um trabalho muito importante porque guarda a nossa memória. Daqui há alguns anos nossos bisnetos poderão conhecer um pouco sobre como fomos um dia. Sem esse livro essa história certamente morreria. Aliás, oito pessoas que nem chegaram a ser fotografadas já morreram. Gente que morava aqui há 70 anos. É por isso que não é exagero dizer que estamos lutando contra o tempo”, comenta Kelly.

Entre os muitos personagens escolhidos por Gui para participar de “Memórias da Vila” estão gente como o casal Geraldina Meira, 80 anos e Natalino Gomes, 84 (que vieram da Bahia direto para o Aglomerado há mais de 40 anos); o pedreiro Luiz Barbosa dos Santos, de 57 anos e que vive na região desde os 12; e a baiana Videlina de Andrade, de 85 anos – e moradora do Aglomerado há 54. Em comum há que se constatar facilmente que cada um deles traz as marcas de batalhas por uma vida melhor, têm a noção plena do que é viver em comunidade e uma capacidade sublime de serem extremamente generosos mesmo vivendo em um lugar que ainda carece de tanto afeto e respeito de seus governantes.

SERVIÇO
Exposição "Memórias da Vila", de Gui Cunha.
Diariamente das 5h15 às 23h, nas seguintes estações do metrô:
. Estação Calafate, Rua Extrema, 120, Calafate
. Estação São Gabriel, Av. Cristiano Machado, 5.600, Bairro São Paulo
. Estação Central, Praça Rui Barbosa, s/nº, Centro
Até 30/4/15