A palavra catarse foi a que melhor se adequou ao resumo de um período bastante particular na vida do fotógrafo mineiro (de Santos Dumont) Pedro David – mais especificamente, o compreendido entre os anos de 2008 e 2010. Uma fase que, entre esquecer e seguir fotografando, Pedro cravou a segunda opção.
“Foi um tempo em que a crise imobiliária assombrava todo o mundo, e eu, particularmente, senti isso muito de perto”, rememora, que despendeu muito tempo procurando um lugar para se fixar. E não só. “Uma época em que o que caía ou era jogado na minha área de serviço virava fonte de inspiração. E um tempo em que minha mãe morreu repentinamente”, diz ele, acrescentando que todos os trabalhos que tinha feito até ali, então, se transmutaram.
 
Inédito
 
A reunião de três séries – “Aluga-se”, de 2008; “Coisas Caem do Céu”, feita entre 2008 e 2009; e “Última Morada”, de 2010 –, pois, norteia a mostra “Fase Catarse”, que pode ser visitada a partir desta quinta-feira, dia 31, no Museu Mineiro.
 
Pedro ressalta que todas as “etapas” já foram expostas em algum momento, em algum lugar – no entanto, é a primeira vez que as três serão submetidas ao olhar do público em conjunto.
 
Vale ressaltar que “Fase Catarse” contará com um importante complemento: um livro, batizado com o mesmo nome da mostra.
 
Nele, estarão as fotografias das três séries, que, assim, poderão “ser levadas para casa”. Tanto a exposição quanto o livro foram feitos com recursos do Fundo Municipal de Cultura e da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, e com o apoio do Fórum Mineiro de Fotografia Autoral.
 
 
Das séries
 
Pedro David mantém o pé atrás quando o assunto é definir o próprio trabalho. “Documentarista? Eu não sei. Algumas pessoas dizem que meu trabalho passa por isso, mas eu sinceramente não me preocupo em defini-lo. Meu registro não se limita a nenhuma determinação. Minha fotografia não cumpre regras”, assegura.
 
Suas fotos são prova evidente. Na série “Coisas Caem do Céu”, por exemplo, Pedro revela um olhar atento para objetos que, originalmente, causaram um certo incômodo, por terem sido lançados por vizinhos, através das suas janelas, e assim caíram na área privativa do apartamento em que Pedro foi morar após a já citada busca frenética registrada na série “Aluga-se”.
 
“São objetos que nem sequer mereceram ser dispensados à lixeira. Foram simplesmente lançados para fora da vida das pessoas”. Pedro confessa: ficava, sim, com ódio “daquilo jogado na minha casa”. Mas de todo descaso e falta de educação, resolveu tirar o melhor. “Decidi fazer um trabalho”, recorda. Assim o fez também em a “Última Morada”, na qual entrou em contato com a dor de visitar a casa que acolheu sua mãe. Lá, Pedro sentiu a presença da figura materna e que pouco a pouco, quadro a quadro, “passava a dar lugar à sua permanente ausência”.
 
Hoje, os tempos são outros. Pedro celebra a abertura da mostra, acumula trabalhos e garante que toda angústia documentada em “Fase Catarse” faz-se presente apenas nos seus retratos. Sua casa e família estão seguras.
 
“Fase Catarse”, de Pedro David – Abertura quinta, às 19h, no Museu Mineiro (av. João Pinheiro, 342). Visitas até 31/8, às terças, quartas e sextas, das 10 as 19h; às quintas, das 12 as 21h; sábados e domingos, das 12 as 19h. Gratuito.
 
 
Uma coisa leva a outra...
 
Há cerca de dois meses, Pedro recebeu um e-mail de um amigo argentino, Alejandro Kirchuck, convidando-o para participar de uma exposição virtual sobre fotografia brasileira no recente Photographic Museum of Humanity – site argentino que promove exposições temporárias virtuais. 
 
Essa mostra virtual já não está mais online, mas, graças a ela, logo vieram outros frutos, também virtuais. Depois de conferir a série exposta “Sufocamentos”, o fundador e CEO do museu/site, Giuseppe Oliverio, convidou Pedro para participar de outra exposição virtual, desta vez no blog da revista TIME, Lightbox. A mostra “Nine Brazilian Photographers You Need to Follow” pode ser visitada no endereço lightbox.time.com.
 
Confira um pouco da exposição:
 
Fotografia: Pedro David/Divulgação
 
 
Além do factual
 
Os apreciadores da fotografia têm no mínimo três compromissos cravados na agenda cultural da semana na capital mineira. Nesta quarta-feira (30), por exemplo, Belo Horizonte sedia o lançamento de um livro que mostra o cotidiano que inspirou o músico Luiz Gonzaga, o eterno rei da sanfona Gonzagão.
 
Já na sexta-feira, dia 1º, entra em cena e uma exposição que percorre o ambiente urbano de uma maneira tão lírica quanto transformadora – e inusitada. Não bastasse, no mesmo dia o Memorial Minas Vale abre uma individual de fôlego.
 
A primeira das iniciativas citadas se reporta ao fotógrafo cearense Tiago Santana, que desembarca na capital mineira nesta quarta-feira, a partir das 19h30, para lançar o livro “Céu de Luiz” – assinado ao lado do alagoano Audálio Dantas. Com entrada franca, o evento acontece dentro do projeto “Foto em Pauta”, que também inclui um bate-papo com o público, na sede do Oi Futuro, no Mangabeiras.
 
Já na sexta-feira, é a vez de os belo-horizontinos se prepararem para conferir a exposição “Fase Catarse” – uma trilogia de trabalhos em fotografia realizados entre os anos de 2008 e 2011 pelo mineiro Pedro David. A mostra (que tem vernissage na quinta-feira, para convidados) pode ser conferida gratuitamente nas dependências do Museu Mineiro, até o dia 31 de agosto.
 
Também na sexta-feira, o mineiro (de Santo Antônio do Monte) Cãncio de Oliveira ganha individual no Circuito Praça da Liberdade, no já citado Memorial Minas Vale, com organização assinada por Heitor Muinhos. São 20 cliques, tirados nos anos 40 e 50, em pontos como a Pampulha e o Centro da capital.