Professor do diretor Michael Wahrmann na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) é um dos protagonistas do longa-metragem de estreia de seu aluno, "Avanti Popolo", que será exibido nesta sexta-feira (11) na Mostra CineBH. André Gatti inicia seu depoimento dizendo que Wahrmann era um gazeteiro de mão cheia.

Os jornalistas presentes na sala de coletivas do Festival de Brasília – onde o filme ganhou o Candango de melhor diretor e ator coadjuvante, além do prêmio da crítica – caem na gargalhada. "Ele não era dos mais assíduos, na falta de outro termo, mas possui uma coisa incrível que é a intuição maravilhosa", afirma.

Gatti, que interpreta o filho de um homem (o diretor Carlos Reichenbach, falecido no ano passado) que parou no tempo, compara a parede gasta da casa que serve de única locação com cena semelhante apresentada no clássico "Limite" (1931), de Mário Peixoto. "Mas Micha faltou a essa aula também. É uma coisa dele".

Metalinguagem

De forma intencional ou não, o filme se sobressai por oferecer leituras variadas de metalinguagem, a começar pela participação de Reichenbach. "Minha geração, de certa forma, se vê no Carlão e nos filmes dele. As lutas que foram travadas por ele até o final da vida são as mesmas das nossas. Talvez tenha piorado", registra.

O cineasta, nascido no Uruguai e de família israelense, afirma que a relação com o cinema é tão forte que ela transborda no longa-metragem – feito com orçamento de curta, durante seis dias. "Apesar de inventados, os personagens são um pouco reais, já que o filho carrega uma melancolia irônica que é própria do Gatti", observa Wahrmann.

Sobre o apego nostálgico do filme, que evoca as ideologias e sonhos de quem viveu as transformações pós-1968, o realizador ressalta que "Avanti Popolo" tem a ver com "o medo irremediável do esquecimento". É por isso que prefere assinalar que não fez um trabalho celebrador do passado. "É um filme também sobre o presente".

Bandeira Rossa

Wahrmann também faz a voz do locutor de rádio que surge no início e no final, transmitindo uma programação muito pessoal de hinos nacionais que acabam por enfatizar a perda das utopias. Entre eles está a comunista "Bandiera Rossa", que traz a frase do título. "As músicas são sempre diegéticas, relacionadas com a ação dramática".

Formado em artes plásticas, Wahrmann destaca que a sua história busca retratar obsessivos. "Cada pessoa do filme tem uma substituição clara de alguma carência ou problema", pondera o diretor, citando o pai que troca o filho desaparecido há 30 anos pelo cachorro e os hinos que repõem o lugar das lutas ideológicas.

Quando o outro filho (Gatti) resolve mexer nos rolos de Super-8 guardados pelo pai, as imagens usadas são de filmes de Marcos Bertoni realizados nos anos 70 e 80. "Eu achei umas sobras de filmes e comecei a emendar. Dublei os personagens e fiz o que hoje eu chamo de Cinema da Reciclagem ou cinema solitário", lembra Bertoni.


Serviço

"Avanti Popolo", de Michael Wahrmann. Com Carlos Reichenbach, André Gatti, Marcos Bertoni. Exibição nesta sexta-feira (11), às 21 horas, no Cine Humberto Mauro. Entrada franca.