Cruzeiro em vertigem

Evaldo Magalhães / 16/01/2020 - 07h00

Colega meu da imprensa esportiva contou que cobria o treino do Cruzeiro, dia desses, e, parado à beira do gramado de um dos campos da Toca II, assustou-se com a aproximação do técnico Adilson Batista, munido de seu tradicional sorrisinho de canto de boca. O ex-zagueirão, que, diga-se de passagem, jogou muuuuita bola tanto no Maior de Minas quanto no Grêmio, atirou um colete no rosto dele.

“Toma o amarelo. Você tem cara de casado e vai formar o time reserva. Repórteres solteiros, por favor, me ajudem a compor o grupo de titulares”, disse o comandante.

Claro que isso é só uma piada, mas a história não está muito distante da realidade. Envolto em uma crise sem fim, o Cabuloso enfrenta enorme debandada de atletas. Uns, insatisfeitos com propostas de drástica redução salarial, buscam transferências vantajosas, com o aval dos dirigentes; outros, simplesmente, abandonam o barco, aconselhados por empresários picaretas, e ainda entram na Justiça, cobrando milhões de um clube mais do que quebrado (a dívida beiraria R$ 1 bi).

O caso é, sim, de desespero, por mais que a gente tente fazer humor. Faltando menos de uma semana para nossa estreia no Campeonato Mineiro, por exemplo, ainda é impossível arriscar a equipe que entra em campo contra o Boa Esporte. Nem o Adilsão deve saber.

Há pouco tempo, indagado sobre a possibilidade de um W.O. humilhante na partida de abertura do Estadual, o técnico garantiu, com o endosso do glorioso zagueiro Leo – esse, sim, um cabra porreta, cruzeirense raiz e que nem cogitou em deixar o time na mão –, que tal desastre jamais ocorreria. Fico, porém, com certo medo...

A boa/má notícia, em tal particular, foi a desclassificação dos garotos da Raposa na Copinha São Paulo, na última terça-feira. Não nego que bateu aquele sentimento de “Oh, não, nada mais dá certo, meu time acabou!”, ao assistir às cobranças patéticas de penalidades efetuadas por alguns dos nossos valorosos jovens. 

Mas, na vida, o lance é “always look on the bright side” (sempre olhar o lado bom), como diz aquela canção entoada pelo Eric Idle no final inesquecível de “A Vida de Brian”, do Monty Python: a garotada, talvez, tenha deixado o Oeste vencer justamente para voltar a BH mais cedo e engrossar a equipe no Campeonato Rural. 

Quanto ao título da crônica de hoje, é óbvio que trata-se de uma analogia revestida de homenagem ao doc “Democracia em Vertigem”, da mineira Petra Costa, indicado ao Oscar. Petra pode tornar-se a primeira diretora latino-americana a levar a cobiçada estatueta. 

A exemplo do que atesta a instigante, embora polêmica, película, o Cruzeirão foi indiscutivelmente alvo de um golpe sórdido nos últimos tempos, configurado em um emaranhado de malfeitos que vieram à tona a partir da reportagem do Fantástico, em maio. 

O baque foi tão forte que desestabilizou totalmente uma nação – no caso, a azul – e nos fez encarar fantasmas que, após quase um centenário de páginas maravilhosas, além de heroicas e imortais, não gostaríamos jamais de ter de encarar.

A tarefa, agora, é juntar os cacos. Se para isso será necessária uma intervenção judicial ou mesmo uma louca parceria com gente rica das Arábias ou de Marte, tanto faz, quem deve dizer são as pessoas que estão à frente da gestão do clube, nesta fase pós-golpe. 

Como bom “patriota” que sou, quero mais é que meu “país” fique limpo. E bem longe da lama.

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