Antes dos aiatolás

Manoel Hygino / 18/01/2020 - 06h00

Ninguém urdira um plano de sabotagem ou terrorismo. Ninguém quereria, certamente, que o avião da Ucrânia caísse após levantar voo do maior aeroporto do Irã. Quarenta e cinco quilômetros de um voo para a morte. O comandante sequer anunciou emergência. 

Eram 63 pessoas, das 176 que perderam a vida, pretendendo voltar ao Canadá, onde residiam, estudavam, após fugirem à Revolução Islâmica de 1979.

Nenhum míssil teria sido lançado contra a aeronave, informou-se. O Estreito de Ormuz, o lugar mais sensível para a guerra, em todo o mundo, nas circunstâncias de então, permaneceu intacto. O avião caíra sozinho (?). 

Trump esbanjou felicidade: “nenhum americano foi atingido, não sofremos perdas, nossos soldados estão seguros”, afirmara o presidente após a execução do general Soleimani. Só o preço do petróleo bruto subiu 6% desde então, mas logo voltou ao patamar considerado normal.

Não fora um atentado, julgara-se inicialmente, nem um mero acidente aéreo. O presidente do Irã, Hassan Rouhani, dias depois, porém, viu-se na obrigação de confessar que o avião ucraniano fora derrubado acidentalmente por míssil do seu exército. “Os responsáveis serão castigados exemplarmente”, prometeu categoricamente. 

Rouhani determinou a prisão de trinta envolvidos. Assegurou que nenhum novo caso do tipo acontecerá. Ninguém sobreviveu. O governo dos aiatolás tremeu nas bases. Manifestantes saíram às ruas de Teerã para protestar, principalmente jovens.

O último embaixador do Brasil no Irã, antes dos aiatolás, que lá até hoje se acham instalados, foi Pio Corrêa, ministro plenipotenciário. Ele fez depoimento precioso sobre aquele tempo. O Shah Reza Palhevi lhe confessou que não podia sequer visitar sua irmã, porque tinha de tomar precauções. Era vigiado: “não sei quais são, onde estão os meus inimigos; mas sei que sempre haverá algum à espreita”. Era 1958.

“E dizia a verdade. Em dois anos no Irã não conheci ninguém que tivesse tão profundo conhecimento dos problemas do país, nem tão apaixonado desejo de resolvê-los, quanto o próprio Shah. Ele tinha realmente a ambição de despertar o Irã de sua modorra secular, modernizá-lo, dinamizá-lo, transformá-lo em um Estado eficiente, próspero e poderoso – uma espécie de Japão do Médio Oriente. Queria o progresso e o bem-estar de seu povo – e isso custou-lhe o trono, custou a vida de dezenas de seus fiéis, e mergulhou o país nas trevas de um obscurantismo fanático que o fez retroceder de mil anos ao tempo das Cruzadas em que um chefe religioso intolerante e sanguinário, o ‘Velho da Montanha’, reinava pelo terror, fazia assassinar quem lhe desobedecia no menor detalhe, e chegou a causar temor ao próprio Sultão Saladino, o cavalheiresco adversário de Ricardo Coração-de-Leão, que no entanto não era homem que se impressionasse facilmente. O ‘Velho da Montanha’ encontrou a sua reencarnação no Ayatolá Khomeini, religioso de maus fígados. O Shah Mohamed Reza esqueceu-se de que no Oriente as estruturas sociais e políticas podem manter-se inalteradas durante séculos e até milênios ancoradas na imobilidade”.

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