O replantio de árvores no mesmo local onde um espécime foi suprimido é raro em Belo Horizonte. Menos de 2% das 4.960 que deixaram de existir neste ano foram substituídas. A limitação se deve a critérios técnicos que avaliam a adequação do antigo espaço. Para biólogos, pesquisadores e engenheiros ambientais, a situação preocupa e deveria ser revista.

De janeiro a maio, apenas 89 exemplares foram repostos. Outras 3.298 árvores foram plantadas, mas as ações ficaram restritas a dois projetos de recuperação de áreas degradadas, o Agroflorestas e o Montes Verdes, nos bairros Ribeiro de Abreu, na região Nordeste, e Engenho Nogueira, na Pampulha. Os números são das secretarias municipais de Obras e Meio Ambiente.

Os atuais programas de reflorestamento adotados são importantes, destacam os especialistas, mas insuficientes. “É bom que sejam plantadas em outras áreas, mas será positivo ao pessoal daquela região, não à população que perdeu o verde”, afirma o professor do Departamento de Botânica do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, Fernando de Oliveira. 

“Quem mora em Belo Horizonte tem notado supressões em grande parte da cidade. O problema é que as árvores são essenciais para regular o microclima, produzem sombra, diminuem a sensação de calor e aumentam a umidade, melhorando as condições de saúde”, explica Oliveira.

Poda

PRADO – Ruas do bairro da região Oeste de Belo Horizonte, como a Diabase, perderam árvores condenadas em julho de 2017; até o momento, não houve reposição

Na capital, todas as supressões são realizadas após análises, que levam em conta o risco de acidentes em caso de queda. A zona Oeste lidera o ranking de cortes, com mais de 1,1 mil espécimes retirados. 

Em outros locais, as ações também são frequentes. Quem passa pelos limites da avenida do Contorno, na região Centro-Sul, tem notado podas e supressões. Em um mesmo quarteirão no bairro Santo Antônio, duas árvores de grande porte foram cortadas na semana passada, nas ruas Quintiliano Silva e Barão de Macaúbas. Segundo operários, uma delas tinha pelo menos 50 anos.

A favor e contra

A estudante de psicologia Ana Clara Garcia, de 26 anos, diz que perdeu a sombra e o frescor na porta de casa. Morando há poucos dias no Santo Antônio, ela foi surpreendida com a motosserra. “Estava super feliz com a vista da janela. Agora ficou tudo cinza”, reclama. 

Já para o porteiro Valdemir Soares, de 55 anos, o corte representou um alívio. Ele, que há mais de três décadas trabalha em um prédio em frente a uma árvore que estava condenada, diz que, em época de chuva e ventania, o tronco se dobrava e os moradores tinham medo de serem atingidos. 

“Uma vez, os galhos caíram em cima de um carro e quebraram o vidro todo”, lembra. Para ele, a supressão é satisfatória, desde que seja replantado um novo exemplar no lugar.

Mais de 3 mil novas mudas, mas apenas em duas regiões

Ao todo, 3.387 espécimes foram plantados na capital neste ano. Porém, 97% das ações foram nos projetos de recuperação ambiental de áreas degradadas do Engenho Nogueira e do Ribeiro de Abreu.

Em nota, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente informou que, com relação à reposição de árvores suprimidas em vias públicas, nem sempre se mostra viável a reutilização do local onde ocorreu o corte. Muitas vezes, inclusive, a necessidade da supressão surgiu, dentre outras causas, exatamente pela existência de algum tipo de incompatibilidade com a presença do exemplar, impedindo novos plantios ali. 

Árvore cai sobre carro

SERRA – Árvore de grande porte caiu ontem, assustando moradores de um edifício; segundo relatos, muitos já tinham pedido o corte da espécime, que estaria condenada

“Este é o caso de passeios estreitos que, lamentavelmente, não mais poderão receber novas árvores, em atendimento a exigências legais referentes à acessibilidade, e de outros locais que apresentam condições igualmente incompatíveis, ainda que de forma temporária”, diz o comunicado. 

O Hoje em Dia já mostrou, em outras edições, que são levados em conta, além da largura do passeio, as distâncias mínimas entre o tronco e o poste de energia e garagens, dentre outros pontos. 

Escolas

A Secretaria de Meio Ambiente informou também que o “benefício trazido pela presença do verde na cidade é representado não apenas por árvores localizadas em vias, como também pela vegetação existente em áreas públicas”. Ainda assim, irá intensificar a reposição de espécimes em ruas e avenidas, especialmente no entorno de escolas, a partir deste semestre. 

Paisagem

O trabalho é essencial para conservar o ambiente, reforça o professor do Departamento de Botânica do ICB da UFMG, João Renato Stehmann. “Para cada supressão, tem que ter uma substituição. Se há respaldo técnico para o corte, a prefeitura deve pensar em uma substituição para não tirar esse componente urbano da paisagem”. 

Também pesquisador do ICB, Fernando de Oliveira defende que a prefeitura plante novas mudas antes de se retirar as árvores condenadas. 

“Uma árvore demora décadas para crescer e ficar com 30 metros. O plantio não repõe imediatamente a função ecológica. Por isso, o município precisa se programar”, observa.

Benefícios

Além dos benefícios de conforto térmico e umidade, as árvores inserem a fauna no ambiente urbano. “Agem como abrigos de animais e insetos, como pássaros e morcegos. Isso é muito bom porque ninguém quer viver em um deserto”, afirma Fernando de Oliveira, da UFMG. 

Engenheiro ambiental, o professor das Faculdades Promove e Kennedy Heitor Soares Moreira destaca algumas espécies que devem ser privilegiadas, como pata de vaca e ipê. “Têm raízes mais profundas, que não prejudicam a calçada com crescimento lateral. Também não dão frutos que podem cair em cima de pedestres e veículos, além de apresentar copas que são menos impactadas por ventos fortes”, afirma.

Além disso

Ontem, uma árvore de grande porte caiu na entrada de um prédio na rua do Ouro, na Serra, região Centro-Sul. Com a queda da árvore, cabos de energia e um poste foram arrastados. Moradores do bairro e também do Santa Efigênia ficaram sem luz. A psicóloga Maria Júlia Andrade disse que o flamboyant era centenário. Ainda de acordo com ela, algumas pessoas já tinham solicitado o corte. “Sábado tivemos um diagnóstico bem sério desta árvore, porque houve a poda dela e a pessoa que podou disse que ela estava condenada. Nós chegamos a acionar os bombeiros, mas eles não vieram a tempo. Hoje, ela caiu. Por sorte, não estava passando nenhum carro na hora”.

Projetos de reflorestamento

O projeto Montes Verdes, no bairro Engenho Nogueira, abrange duas áreas de preservação fechadas ao público, em processo de recuperação ambiental. Os locais foram escolhidos por estarem na bacia da Pampulha, em alto grau de degradação em encostas, com “urgência de início dos trabalhos”. Já o Agroflorestas é um programa de plantio de árvores dentro de uma área de proteção do Ribeiro de Abreu, próximo a uma horta comunitária do bairro, onde viviam pessoas que foram desapropriadas. Ele abrange a ocupação Izidora e o parque do Brejinho e deve ser expandido para outras localidades da cidade.

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