Um dos painéis sobre tapumes que há duas semanas isolam a Praça da Liberdade para reformas foi alvo de um ato de vandalismo. A pintura da artista Pat Caetano, que mostra uma mulher nua cercada de flores sob a frase "Respeita as Minas" foi alvo de uma intervenção que ela classifica como um ato de censura. Os seios e o sexo da mulher na pintura foram cobertos com tinta branca, mas a artista promete que vai refazer a arte "de um jeito diferente" no próximo domingo (5).

A pintura original foi feita no dia 22 de julho e, de acordo com a artista, o retorno sobre sua arte enquanto era feita foi bem diferente. "Todos que passavam por mim elogiavam o trabalho, ninguém esboçou nenhum incômodo". Apesar da reação inicial, Pat conta que esperava algum tipo de resposta nesse sentido: "Acho até que demorou".

A artista afirmou que ficou sabendo da intervenção através da mensagem de uma amiga, que enviou por WhatsApp a foto da arte adulterada. "Fiquei extremamente chateada, mas menos pela minha arte e mais pela clara demonstração da violência, da censura, do ódio que a mulher sofre todos os dias na nossa sociedade.  Foi uma ofensa às mulheres que querem ser livres, que merecem e exigem respeito".

A obra de Pat Caetano faz parte de uma ação da Prefeitura de Belo Horizonte em parceria com o Insituto Amado que escolheu 54 artistas para colorirem os tapumes que protegem a Praça da Liberdade para a reforma. Ela trabalha como ilustradora e muralista há 20 anos e sua proposta foi analisada e escolhida entre outras 260. A artista conta que esta foi a primeira vez que sofreu algo do tipo, pois sempre se preocupou em criar artes leves, não agressivas, não muito realistas e até mesmo lúdicas. 

Pat acredita que o responsável pela intervenção seja alguém amador, que não trabalha com grafite ou pichação, conservador, morador da região, e "alguém que preza pelo falso moralismo, que tem muito conservadorismo dentro de si", interpreta.

Abertura a debates

Apesar da censura, a artista se diz tranquila e afirma que o episódio só está dando forças. "Sinto que estou no caminho certo. A arte é feita para tocar as pessoas e não necessariamente de forma positiva. Me sinto muito lisongeada pelos afagos e pelas pedradas", afirma.

Pat também comemora o fato de que a intervenção abriu um importante espaço para debates sobre o assunto, sobre o que a mulher mineira sofre todos os dias. De acordo com ela, apesar de ter sido uma agressão, muitas mulheres sofrem coisas muito piores todos os dias, são profundamente feridas por pensamentos conservadores, e que, ao contrário da pintura, não têm conserto. "A violência que afeta o coração das minhas irmãs pobres, negras, não tem tinta que conserte. Se eu refizer o trabalho, vai ser por essas mulheres, que não têm o privilégio de estarem na mídia, na Praça da Liberdade".

A Prefeitura de Belo Horizonte ainda não se manifestou sobre o ocorrido.