Nada de assassinato, assalto à mão armada, famílias reféns de bandidos ou mulheres violentadas. Na contramão dos índices de criminalidade registrados em quase todo o Estado, moradores de pequenas cidades do interior vivem em paz, harmonia e sossego. O sonho da vida bucólica e tranquila é realidade em um seleto grupo de 43 municípios.

Os dados mais recentes da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) apontam a inexistência de crimes violentos (homicídio, sequestro, extorsão mediante sequestro, cárcere privado, roubo e estupro) nessas localidades em 2015 (até outubro). No ano passado, 34 municípios estavam nesta condição.

A ilha de segurança é formada por pacatas comunidades sem favelas, baixo desemprego e pouca evasão escolar. A maioria tem entre 2 mil a 3 mil habitantes e está concentrada nas regiões mais ricas, como a Zona da Mata, Sul de Minas e Centro-Oeste. As poucas queixas prestadas à polícia são de furtos e agressões.

Moradores de 43 cidades mineiras estão imunes aos crimes violentos

 

Perto de BH

Mas há exemplos de lugares seguros não tão distantes da capital, onde as casas estão sempre com as portas e janelas abertas, como afirma a relações públicas Andréia Cristina Rodrigues, de 45 anos. Nascida e criada em Ibertioga, a 210 quilômetros de BH, na região Central, ela conhece bem as diferenças da metrópole e do interior.

Aos 18 anos, Andréia se mudou para Juiz de Fora. Depois passou pela capital e desde maio deste ano voltou a morar na cidade natal. As diferentes experiências serviram para confirmar a acertada escolha.

“Na semana passada, estive em BH e por pouco não roubaram o meu celular dentro do ônibus. Em Ibertioga, se eu perdesse meu telefone, tenho certeza que viriam à minha casa devolver”, compara. A casa dela, no bairro Santana, nunca fica fechada de dia. “Sempre estamos acenando e cumprimentando quem passa pela rua”.

Participação comunitária facilita policiamento, diz especialista

A histórica Tiradentes, na região Central de Minas, também figura na lista dos municípios sem registro de crimes violentos neste ano. Pelas ruas de pedra do importante roteiro turístico é fácil ver pessoas batendo papo na porta dos antigos sobrados até tarde da noite.

Morador de Belo Horizonte, o médico Eduardo Filgueiras, de 59 anos, tem casa em Tiradentes há cerca de 30. Ele conta que já se considera “inserido na sociedade local” e confirma a ilha de tranquilidade.

O imóvel, próximo ao centro histórico, nunca foi arrombado e frequentemente está com as portas e janelas abertas. “Todos se conhecem na cidade, sabem se a pessoa é filho ou parente de alguém. Essa interação entre os moradores é um facilitador para a sensação de segurança das pessoas”.

O ex-secretário de Cultura e Turismo de Tiradentes, o agora prefeito Ralfp Justino (PV), lembra que o índice de desemprego é muito baixo e que o município ainda “dá emprego para pessoas de São João del-Rei, Prados e até Barroso”, diz. Para ele, qualidade de vida, opções de inserção no mercado de trabalho e “cidade pequena onde todos se conhecem” favorecem a paz no local.

Responsável pelo policiamento de Tiradentes e outras oito cidades, o capitão Geraldo Cezar Veloso, da 190ª Companhia da Polícia Militar, diz que o efetivo é de 126 homens. O patrulhamento prioriza regiões próximas a bancos, casas lotéricas e Correios. São executadas ações preventivas, como o Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd) e reuniões com a comunidade.

Situação favorável

Policial civil por 35 anos, o ex-delegado Islande Batista, que chefiou o Departamento de Crimes Contra o Patrimônio, ressalta que características das cidades favorecem a ação policial. “São localidades muito pequenas, às vezes do tamanho de um bairro de BH. As pessoas são simples e há pouca movimentação de dinheiro. Ou seja, não são visadas pelos bandidos”, afirma Batista.

Além da facilidade devido ao pequeno limite territorial, o especialista em segurança lembra que o trabalho da PM é comunitário, com ampla participação da sociedade. “Na maioria dos casos, existe apenas um destacamento. Os policiais são chamados pelo nome e qualquer atitude fora da acostumada rotina das famílias, como um carro com placa de fora, já levanta a suspeita dos próprios moradores”.

Sem homicídios, municípios são premiados

Na tentativa de incentivar políticas públicas voltadas para a segurança da população, o governo de Minas homenageou, na noite dessa quinta (10), 33 municípios que tiveram índice zero de homicídios nos últimos dez anos. Foi a primeira vez que o chamado Prêmio Mineiro de Direitos Humanos foi entregue.

A solenidade, na Assembleia Legislativa, foi promovida pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania (Sedpac) e marcou as comemorações da Declaração Universal dos Direitos Humanos e o Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Pequenas Ilhas

A lista foi feita com base em informações da Polícia Militar e da Secretaria de Estado de Saúde e contempla cidades pequenas do interior, como Alto Caparaó, Arantina, Belmiro Braga, Capela Nova, Caranaíba, Carrancas, Casa Grande e Conceição da Barra de Minas.

Foi entregue a cada prefeitura um acervo de livros para que as cidades modernizem ou comecem a montar uma biblioteca pública. O kit é composto por 600 livros da Secretaria de Estado de Cultura e um computador, dentre outros materiais.