Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), feito em parceria com a universidade inglesa Imperial College London, revelou que mais de 320 mil mortes  - aproximadamente metade das mortes causadas pela covid-19 no Brasil-, poderiam ser evitadas se as capitais brasileiras tivessem uma boa infraestrutura hospitalar. Segundo o artigo Factors driving extensive spatial and temporal fluctuations in covid-19 fatality rates in Brazilian hospitals, as desigualdades geográficas e as condições dos hospitais agravaram a pandemia.

Um dos coordenadores da pesquisa, o professor Renato Santana, da Universidade de São Paulo (USP), explica que os estudos, consideraram 14 capitais brasileiras e começaram no fim de 2020, no início da segunda onda de Covid-19 no país, com o surgimento da variante P.1., ou gama, também conhecida como a variante de Manaus.

Após o colapso no sistema de saúde da capital amazônica, os cientistas acompanharam a variante que se espalhou para os outros estados brasileiros, causando o aumento do número de hospitalizações e mortes pelo coronavírus.  

Utilizando o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), os pesquisadores analisaram a taxa de mortalidade nas capitais e a estrutura hospitalar de cada cidade, levando em conta o número de leitos disponíveis de enfermaria e UTI; quantidade de profissionais (como enfermeiras e médicos) e o número de equipamentos hospitalares, como ventiladores.

O professor explica que os dados analisados entre 20 de janeiro de 2020 e 26 de julho de 2021 mostraram que houve aumento das taxas de mortalidade e de hospitalização em todas as capitais, mas de forma desigual. Segundo Santana, o grupo esperava encontrar números homogêneos uma vez que a variante gama chegou às 14 cidades na mesma época.  Entretanto, a análise dos dados mostrou que cada capital teve as taxas aumentadas em momentos diferentes, refletindo as condições de suas estruturas hospitalares. 

“Percebemos que a infraestrutura hospitalar das capitais contribuiu mais que a variante gama para o aumento da fatalidade por covid-19. Ou seja, capitais com estruturas hospitalares melhores registraram menos casos de mortes associados à chegada da variante de Manaus”, concluiu.

Capital mineira é bem avaliada 
De acordo com o artigo, entre as capitais analisadas, Belo Horizonte apresentou as menores taxas de fatalidade e hospitalização por Covid-19, e não chegou a 100% de ocupação dos leitos hospitalares. O estudo mostra que, caso as demais cidades analisadas tivessem a mesma estrutura hospitalar da capital mineira, 28% das mortes poderiam ter sido evitadas, o que equivale, em números absolutos, a 328.294 óbitos. Já a taxa de hospitalização poderia ter sido reduzida em 56%.

Para Santana, os números refletem os investimentos em saúde pública e estrutura hospitalar na capital mineira ao longo dos anos. “Experimentamos uma pandemia por dois anos, e Belo Horizonte só foi bem porque já tínhamos uma infraestrutura muito boa e hospitais de referência, como o Eduardo de Menezes, no bairro Bonsucesso, e o Júlia Kubitschek, no Milionários, que foram referências no tratamento de casos graves de covid-19. Esses hospitais foram estruturados há muito tempo, desde a época em que enfrentávamos os vírus zica, chikungunya e até mesmo a dengue severa. São estruturas que já vinham sendo montadas e que nos deram boas condições para enfrentar a pandemia”, explicou.

O  pesquisador acrescenta que o estudo poderá ser utilizado como ferramenta para identificar as regiões que precisam de maior investimento do Ministério da Saúde para melhorias nas estruturas hospitalares, contratação de profissionais e aquisição de equipamentos. 

O cientista conclui que a pandemia de Covid-19 pode ser uma oportunidade de preparar o sistema de saúde brasileiro. “Precisamos investir para enfrentar futuros cenários de crise”, adverte.

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