O reimplante da mão de um fazendeiro mineiro de 67 anos, realizado nesta semana, no Hospital Madre Tereza, em Belo Horizonte, lança um holofote sobre a força da ciência e dos profissionais de saúde mineiros e brasileiros.

Ao longo da madrugada da última quinta-feira (14), por sete horas, a equipe do cirurgião de mão Paulo Randal Pires Júnior trabalhou com afinco para reimplantar a mão direita de José Adauto Cangussu, morador de Carlos Chagas, no Noroeste do Estado, que havia sido amputada de forma traumática, na altura do punho, em uma máquina de cortar madeira, 12 horas antes do procedimento.

Minas, hoje em dia, é um dos grandes polos médicos do país, somos referência em cirurgia da mão, especialidade da ortopedia que tem crescido muito

Paulo Randal Pires Júnior

O médico Paulo Randal conta que a operação – envolvendo uma equipe de cinco profissionais, sendo dois cirurgiões de mão, um médico residente de cirurgia de mão e outro de anestesia, além de um anestesista – foi um sucesso e as chances atuais são de que o fazendeiro recupere de 50% a 80% dos movimentos da mão reimplantada.

Cirurgião de mão Paulo Randal Pires Júnior

Cirurgião de mão Paulo Randal Pires Júnior comandou o implante no Hospital Madre Tereza

“Ele já chegou com 12 horas do trauma, tempo limite para o reimplante. Foi uma cirurgia longa, de sete horas. A gente conseguiu fixar ossos, reconstruir artérias, veias, nervos e tendões. Minas, hoje em dia, é um dos grandes polos médicos do país, somos referência em cirurgia da mão, especialidade da ortopedia que tem crescido muito”, observa Paulo Randal.

Avaliado na manhã deste sábado, segundo o médico, o paciente encontra-se sem queixas e estável. “Existe risco de rejeição, mas avaliei agora e o curativo estava bem, retorno venoso estava bom. O pulso estando presente também é positivo”, confirmou o especialista.

Filho do fazendeiro atendido no Madre Tereza, o também médico Akio Vilela Cangussu, que moveu mundos e fundos para que o pai tivesse a mão reimplantada, conta que José Adauto Cangussu tem boa saúde e está confiante na completa recuperação dele.

Saga no salvamento

O socorro ao pai, segundo Akio Cangussu, foi uma grande operação de solidariedade, que envolveu profissionais de saúde, colaboradores da fazenda e várias outras pessoas. O médico conta que José Adauto estava na fazenda, trabalhando, como costuma fazer, e, de repente, retornou a Carlos Chagas acidentado, dizendo ao filho que havia perdido a mão.

“Meu pai foi para a fazenda, na quinta-feira, e, quando eu estava saindo para Itajubá, onde trabalho, ele chegou, trazido por um colaborador, com o braço enrolado em um pano, e me disse: “Perdi a mão, pus a mão na serra”. “Tive que me conter e conduzir o caso”, relembra Akio Cangussu, que orientou os primeiros socorros ao pai no hospital da cidade e o acompanhou na transferência para Teófilo Otoni, município com mais recursos de atenção médica na região.

Até então, recorda o médico, a mão amputada do pai não havia sido encontrada na fazenda. Assim que colaboradores localizaram o membro, apesar das condições adversas, segundo Akio Cangussu, o acondicionaram no gelo e transportaram para Teófilo Otoni. Nesse momento, o filho médico do paciente já fazia contatos com a equipe do Hospital Madre Tereza, em busca da possibilidade de reimplante.

“Pediram foto da mão, mandei fazer fazer um raio-x e enviei. Alguns disseram que havia chance, mas que as condições eram muito difíceis. Quando deram esperança, comecei a correr atrás de um avião para remover meu pai. Os médicos do Hospital Santa Rosália, de Teófilo Otoni, me ajudaram muito, assim como a equipe do dr.Randal, de BH, que orientou sobre como manter o membro bem acondicionado (o recomendado é embeber o membro em uma compressa com soro, fechar com saco plástico e colocar no gelo)”, detalha Cangussu.

Helicóptero dos Bombeiros

Ele revela que não conseguiu avião para a transferência do pai de Teófilo Otoni para a capital, chegou a pensar em contratar uma UTI móvel, até que a namorada, também médica, negociou a ajuda de um helicóptero do Corpo de Bombeiros de Belo Horizonte. “A dra.Lucila Brandão, médica dos Bombeiros, informou que não dava mais tempo de pousarem em Teófilo Otoni, porque já eram 17h. Então, combinamos de levar meu pai de ambulância até Governador Valadares, onde o helicóptero pousou”, detalha.

“Não pude ir junto no helicóptero. Meu pai estava lúcido e foi um guerreiro. As equipes já estavam prontas, esperando, tanto a dos Bombeiros quanto a do Hospital Madre Teresa. Expliquei tudo ao meu pai e segui de carro, de Valadares, até BH. Fiquei sem notícias, sem saber se as condições da mão estavam boas. Enquanto eu viajava, a cirurgia de reimplante era realizada, na noite de quinta para sexta, das 22h30 às 6h30. Quando o dr.Paulo Randal me mandou foto da mão reimplantada, foi muita emoção”, comemora Akio Cangussu, que já esteve com o pai no hospital.