A vida saudável e cheia de atividades de Brígida de Fátima Batista Gomes - ligada no 220, como ela mesma se define -, ainda não voltou 100% ao normal, desde que precisou ser internada para tratar a Covid-19, entre agosto e setembro de 2020.

Brígida, de 40 anos, não tomava medicamento, praticava exercícios físicos cinco vezes por semana e mantinha uma alimentação balanceada. “O médico me falou que essas sequelas que tenho por causa da Covid podem durar a vida inteira, pode ser que eu precise tomar anticoagulante para sempre”, conta ela.

Encarregada pelo Serviço de Processamento de Roupas da Fundação Hospitalar de Varginha, no Sul de Minas, mais conhecida como Hospital Bom Pastor - referência no atendimento oncológico para 176 municípios -, ela começou a sentir os primeiros sintomas da doença em 21 de agosto.

Na madrugada de 31 de agosto, senti uma dor muito forte nas costas, do lado esquerdo. Voltei à UPA e, como tive recomendação para voltar a fazer o repouso em casa, liguei para um médico conhecido, que me orientou a buscar atendimento no Humanitas – hospital particular de Varginha. Lá, fui submetida a uma tomografia, que apontou embolia pulmonar

“A gente tinha feito uma faxina no setor em 20 de agosto. No dia 21, eu já estava com sintomas de resfriado, tosse, mal-estar, dor de garganta, dor de cabeça. Para mim, era um resfriado. No dia 22, um sábado, perdi totalmente o paladar e o olfato, não sentia nada”, relata.

No domingo (23), Brígida buscou atendimento em uma UPA e a médica que lhe atendeu identificou sintomas de Covid-19. Medicada para a doença, ficou em isolamento em casa, à espera do exame PCR, para confirmar a presença do novo coronavírus, marcado para 27 de agosto. Quando um enfermeiro do hospital a visitou para a coleta do material do teste, a encontrou desanimada e se alimentando mal.

Dor forte

“Na madrugada do dia 31 de agosto, senti uma dor muito forte nas costas, do lado esquerdo. Voltei à UPA e, como tive recomendação para voltar a fazer o repouso em casa, liguei para um médico conhecido, que me orientou a buscar atendimento no Humanitas – hospital particular de Varginha. Lá, fui submetida a uma tomografia, que apontou embolia pulmonar”, descreve Brígida, que tem formação como técnica em enfermagem.

Mas foi no Hospital Regional de Varginha, onde conseguiu uma vaga, que ela passou oito dias internada, um deles fazendo uso de oxigênio. “Não tive falta de ar, mas, como eu fazia exame de gasometria todo dia, mostrava baixa de oxigênio. E as punções da gasometria são terríveis, as minhas eram feitas na virilha”, recorda.

“Neste dia – 31 de agosto -, tive medo de morrer. Fui transportava de ambulância, em UTI móvel, para o regional e, quando a médica me falou que a vaga era para o CTI, achei que estava morrendo. Acabou não tendo vaga no CTI e fui para a enfermaria. Eu já não conseguia mais ligar no celular, só chorava. A médica precisou me prescrever um tranquilizante para eu conseguir dormir”, conta Brígida, sobre o medo e o sofrimento que enfrentou.

Sequelas

Em 8 de setembro do ano passado, ela recebeu alta hospitalar. Ficou mais 15 dias em isolamento domiciliar, especialmente, para não ser contaminada por outra doença, já que estava com a resistência baixa. Voltou a trabalhar em 5 de outubro, mas admite que ainda sente cansaço.

Brígida já está fazendo exercício físico - caminhada - por recomendação de fisioterapeutas. E, na consulta que fez agora em janeiro, quatro meses depois de receber alta, o médico lhe disse que a tosse persistente é consequência da embolia pulmonar e que ela pode precisar tomar o medicamento anticoagulante pelo resto da vida.

“Qualquer batidinha que dou, fica roxo no lugar. Minhas pernas estão roxas, não posso me cortar, não tenho mais aquela vida normal, de não tomar nenhuma medicação. Hoje, tenho que ficar mais contida”, lamenta, ponderando ainda que “tem hora em que me sinto inútil, a gente que teve Covid precisa de um acompanhamento psicológico, ninguém fala do pós-Covid, depois que a gente tem a doença, ninguém se preocupa com a gente”.

São pessoas ignorantes, que não querem o conhecimento, porque isso está sendo falado todo dia, toda hora. Infelizmente, só vão sentir a gravidade quando acontecer com elas

Descuido das pessoas

Integrante do Conselho Municipal de Saúde de Varginha, Brígida se diz cansada de tentar convencer as pessoas dos riscos do novo coronavírus. Atualmente, considera que quem não se cuida e põe em perigo outras vidas “são ignorantes, que não querem o conhecimento, porque isso está sendo falado todo dia, toda hora. Infelizmente, só vão sentir a gravidade quando acontecer com elas”.

Ela aponta que Varginha, por exemplo, está com os  CTI e as enfermarias lotadas, que hospitais do município têm, inclusive, precisado enviadar pacientes com Covid-19 para socorro em Três Pontas, mas, ainda assim, frisa, muita gente tem agido como se nada estivesse acontecendo.

As pessoas não querem ter paciência, querem trabalhar antes de sair o resultado do exame para Covid, não querem usar máscara, lavar mãos, manter o distanciamento. São coisas que salvam vidas

“As pessoas não querem ter paciência, querem trabalhar antes de sair o resultado do exame para Covid, não querem usar máscara, lavar mãos, manter o distanciamento. São coisas que salvam vidas. Se eu falar com você a dois metros de distância e estivermos usando máscara, o risco de contágio é zero. Não dá para entender o que esse povo tem na cabeça para não se cuidar”, lamenta.

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