Aos 52 anos, a médica Ariadna Muniz está diante de um grande desafio: dirigir um novo complexo oftalmoló-gico, em Belo Horizonte, que atenda com excelência quem precisa de assistência médica especializada. Na bagagem, a especialista leva a experiência de quase três décadas como oftalmologista e os últimos 15 anos à frente do Hospital Hilton Rocha, por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado entre o Ministério Público (MP) e a Sociedade Educativa do Brasil (Soebras). Foi lá que a profissional, membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), fez residência, em 1996, e iniciou a história de amor com a unidade de saúde instalada no Mangabeiras, Centro-Sul da capital. 

Ariadna Muniz

Digite aqui a legenda

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, Ariadna Muniz fala da trajetória, a parceria com a Fundação Hilton Rocha, finalizada no último dia 14, e os planos para o recém-inaugurado complexo oftalmológico instalado no bairro Santa Efigênia, na região hospitalar da capital.

Por que a senhora escolheu a carreira médica especializando-se em oftalmologia
Inicialmente, fiz prova de residência para dermatologia e oftalmologia. Sempre gostei dessas duas áreas na faculdade. Mas depois que a gente começa a estudar os olhos, é paixão. Quem nunca enxergou não sabe como é essa sensação. Quando, com o estudo e conhecimento, você ajuda uma pessoa que perdeu a visão a enxergar novamente, é uma satisfação imediata. O resultado você vê imediatamente. Você tem ações efetivas com resultados efetivos. É uma especialidade na qual me realizo e, dentro dela, posso atuar tanto na saúde pública quanto na área da educação.

Durante a pandemia de Covid-19 houve redução nas consultas médicas. É o mesmo cenário na área oftalmológica? A situação preocupa?
Estamos em sinal de alerta desde março, quando começamos a viver essa pandemia. Com certeza, as pessoas que fazem controle anual, mas não têm doenças como glaucoma ou diabetes, diminuíram a procura. Quem tem mais de 65 anos também deixou de ir, só procuram em situação de emergência. As cirurgias reduziram. A própria Secretaria Municipal de Saúde deixou aberta a possibilidade apenas dos procedimentos de urgência. Depois, começamos a voltar gradativamente com 30%, 40% do volume que atendíamos. Mas deixar de fazer o controle preocupa. A pessoa está numa pandemia, mas as doenças crônicas continuam precisando de controle. Além disso, o aparelho ocular pode ser entrada do novo vírus. Por isso, não paramos os atendimentos. A população pode ficar tranquila, pois os serviços médicos adotaram normas para evitar o contágio, como distanciamento e uso de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual).

ariadna muniz

Por meio de uma parceria da Soebras, a senhora dirigiu o Hospital Hilton Rocha por 15 anos. Qual foi o grande desafio ao dar continuidade aos trabalhos realizados na unidade de saúde?
Quando chegamos para assumir a unidade, em 2005, a Vigilância Sanitária também estava lá, para lacrar o hospital, que, na verdade, já estava com as atividades encerradas e já tinha até perdido o alvará de funcionamento. Foi aí que começou a batalha. Para reverter a situação, a Vigilância Sanitária pontuou 36 itens que precisávamos melhorar no prédio e o prazo para isso era de um mês, apenas. Conseguimos quitar as dívidas que a fundação tinha com funcionários, fornecedores e trabalhistas. O montante chegava a R$ 1,5 milhão. O único débito hoje existente é tributário, de cerca de R$ 2 milhões, que entraram para o Refis (programa que permite renegociação de dívidas com possibilidade de parcelamento mensal). Mas, de forma geral, o grande desafio foi resgatar e fazer oftalmologia de ponta neste hospital que sempre foi referência em todo o país e até fora do Brasil. Nos últimos 15 anos, conseguimos a marca de mais de 2,5 milhões de atendimentos.

Lá, mais de 90% dos atendimentos eram feitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Como a senhora avalia o serviço oftalmológico no país, em especial o público, que sempre é alvo de muitas reclamações?
O SUS é o melhor plano de saúde que existe. Quem trabalha no sistema precisa atender com carinho, ouvir o paciente, humanizar o SUS. O SUS funciona assim, não é um meio financeiro. A tabela dos serviços pagos aos prestadores está defasada há anos, mas é imprescindível manter a qualidade. Foi gratificante, quando reassumimos o Hilton Rocha pelo SUS, ter tido a oportunidade de primar pelo atendimento de qualidade, investindo em equipamentos tecnológicos de última geração e, principalmente, tendo uma equipe de profissionais de excelência.

O novo complexo oftalmológico, que é mantido pela Soebras, pretende atender pelo SUS?
Sim, já fizemos o requerimento e estamos aguardando um chamamento público para o credenciamento de novos serviços a ser publicado pela prefeitura. Tivemos uma reunião com o secretário de Saúde de Belo Horizonte (Jackson Machado Pinto) e ele disse estar muito preocupado. Afinal, ele recebeu uma recomendação do MP (Ministério Público) para a suspensão do convênio com a Fundação Hilton Rocha sem ter outro serviço para absorver a demanda que estava surgindo e, agora, sendo redistribuída.

Fico triste porque não existe mais o Hospital Hilton Rocha e, em pouco tempo, não deveremos ter mais o prédio onde ele funcionou por anos. Mas continuamos fortes, levando a história do professor. Ele era uma pessoa ímpar”
 

Enquanto isso não acontece, como estão sendo atendidos os pacientes que eram acompanhados no Hilton Rocha?
Não fechamos as portas para quem nos procura, independentemente se o SUS está liberado ou não. Temos todo o interesse de continuar esse serviço que prestamos com tanta excelência nestes últimos 15 anos. Fiquei impressionada com a fila de pacientes na porta do instituto para onde estão sendo direcionados pela atual gestão da Fundação Hilton Rocha, sem fazer fluxo. Vi pacientes chorando, reclamando. Dói na gente. Quanto estávamos à frente do Hilton Rocha não tínhamos isso. Nos últimos 15 anos, não ouvimos reclamações e até o MP sempre falou, em várias reuniões, que fazíamos serviço de excelência. Mas dói mais ainda ver o presidente (da Fundação) pedindo doações para retomar os atendimentos. Nunca pedimos doações, sempre investimos. Da forma como agora está, o paciente fica perdido sem consulta, sem atendimento, sem medicação e sem esse cuidar, que é o mais importante. O que me levou a fazer medicina foi o cuidar do paciente. Essa atenção não está sendo dada àqueles que acompanhamos por 15 anos. 

Há dois meses os atendimentos passaram a ser feitos em um moderno prédio na região hospitalar. Por que a mudança foi necessária?
Desde que assumimos, sabíamos que não podíamos fazer muitas alterações no prédio do hospital no Mangabeiras, por causa do tombamento da Serra do Curral. Por causa disso, as obras eram bem limitadas, só podíamos fazer reforma. Mas quando foram iniciadas obras no terreno vizinho, a estrutura ficou muito abalada. Antes não havia rachadura, nem o terreno tinha cedido como cedeu. A partir de julho de 2017, começaram a aparecer trincas nas paredes, vidros começaram a quebrar. Temos laudos comprovando a dilatação na área e, na chuva do ano passado, a Defesa Civil constatou problemas. Os responsáveis (pelas intervenções) contrataram uma empresa estrangeira para realizar obras e evitar problemas maiores. Firmamos acordo para que elas fossem iniciadas em fevereiro passado, mas isso não aconteceu. O espaço só foi piorando e a situação do prédio foi ficando mais instável. Tinha risco tanto para colaboradores quanto pacientes. Com medo de ter um desmoronamento, comunicamos a Secretaria Municipal de Saúde e entramos com ação, mandamos e-mails. Não obtivemos respostas. Então, achamos melhor ir para esse prédio com estrutura nova, até maior que a anterior. Mudamos parcialmente com o atendimento ambulatorial, exames e departamentos (urgência e emergência, entrega de colírios), justamente para evitar uma catástrofe. Vimos uma situação delicada.

Algumas unidades oftalmológicas que atendem pelo SUS em BH estão deficitárias. Algumas conseguem fazer um pequeno volume de atendimento, outras têm equipamentos quebrados"

Mas como ocorreu essa depredação do prédio?
Gostaria de ressaltar que, em várias mídias, o atual presidente da Fundação disse que deixamos o prédio em situação de total precariedade. Isso é uma inverdade, uma mentira. Temos documentação e imagens que mostram a estrutura quando a recebemos e quando a entregamos. Ele também disse que saqueamos os equipamentos. Porém, o TAC firmada com o MP dizia que os aparelhos adquiridos nesse período de 15 anos, os investimentos feitos, seriam incorporados à Fundação caso o convênio fosse renovado, o que não aconteceu. Isso está expresso no termo de ajustamento. Quando assumimos, fizemos o inventário e os equipamentos que estão neste documento foram deixados lá, não podem ser dispensados. Vale ressaltar que, quando chegamos, não havia praticamente nada no hospital, só equipamentos antigos.

Como será daqui para frente?
A mudança é sempre desafiadora. Temos a consciência do trabalho magnífico que fizemos no Hilton Rocha. Mais de 130 profissionais se formaram por lá, como residentes, e saíram levando o nome da instituição. Agora, daremos continuidade a esse trabalho, independentemente do lugar onde estivermos, o nosso maior patrimônio, e que ninguém tira e é inquestionável, é o nosso corpo clínico, a excelência dos atendimentos. Estamos em instalações mais modernas e com o coração cheio de alegria porque sabemos que vamos continuar prestando um serviço moral, ético e de qualidade.