A contaminação em tanques de cerveja da Cervejaria Backer aconteceu desde janeiro de 2019. A informação está no relatório final do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), divulgado nesta terça-feira (4). Segundo o documento, ficou constatado que as substâncias tóxicas monoetilenoglicol (MEG) e dietilenoglicol (DEG) não estavam restritas a lotes que passaram por um determinado tanque, mas também foram detectadas em bebidas produzidas anteriormente à sua instalação.

A partir da análise de 600 amostras, a equipe do Mapa constatou que a intoxicação de dezenas de consumidores entre outubro de 2019 e janeiro de 2020 não foi um evento isolado no histórico de produção da cervejaria. Há comprovação de que a contaminação ocorria desde o início de 2019 e indícios de que pode ter acontecido também em 2018 – mas o ministério não teve acesso a amostras dessa época. O relatório pode ser conferido aqui

“É provável que além da falha na estanqueidade do tanque JB-10, haja algum outro fator concorrente, não vinculado à estanqueidade, envolvendo os demais tanques. Deve ter havido alguma falha de processo que levou glicóis aos diversos tanques, em diferentes ocasiões e com concentrações variáveis de glicóis, cuja proporção se explica em função das reiteradas recargas de MEG misturado com DEG”, diz o relatório.

O Mapa concluiu que “a cervejaria Backer adotou práticas irresponsáveis ao utilizar líquidos refrigerantes tóxicos de forma deliberada em seu estabelecimento, utilizando-os em detrimento de alternativas atóxicas como propilenoglicol e álcool etílico potável. A empresa furtou-se também em adotar controles de qualidade necessários de forma a mitigar o risco apresentado pelo uso de MEG, aceitando risco demasiadamente elevado para esta atividade”.

A divulgação do relatório final do Mapa acontece no mesmo dia em que Polícia Civil e o Ministério Público fizeram uma operação para investigar se a cervejaria Backer sabia, e desde quando, do vazamento de produtos químicos em bebidas da marca. Os investigadores descobriram, recentemente, que fichas, usadas para o controle de qualidade interno de produção, traziam a informação de que havia derramamento de "glicol" nas cervejas.

O ministério garantiu que a empresa segue lacrada e os procedimentos para apuração de responsabilidades na esfera administrativa já foram iniciados, seguindo os ritos processuais legalmente previstos.

Explicação científica

Além de apresentar resultados sobre os estudos feitos em tanques da cervejaria e em amostras de diferentes cervejas lá produzidas, o relatório do Mapa também afirma que as duas substâncias tóxicas usadas no resfriamento de tanques não são produzidos pela levedura cervejeira em condições normais de produção desta bebida, como a empresa chegou a alegar.

“Tampouco foram identificadas contaminações desta natureza em análises realizadas em cervejas nacionais e importadas. Conforme revisão da literatura científica tal contaminação é inédita em alimentos no Brasil”, afirmou o Mapa no relatório.

Procurada pela reportagem, a Backer não se manifestou sobre o relatório. 

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