Depois de mais de dois meses de quarentena e sem previsão da volta às salas de aulas, pais têm lidado com crianças indóceis no confinamento. Como se não bastasse a distância dos coleguinhas, atividades de lazer como parques, cinemas e shoppings foram suspensas. Fim de semana curtindo os avós, então, nem pensar. Resultado: filhos ansiosos e até agressivos. Mas se o isolamento é inevitável, como ajudar?

O primeiro passo é ouvir. O segundo, incluir. 

O psiquiatra Renato Ferreira Araújo explica que, embora muitas vezes não consigam nomear seus sentimentos, as crianças os expressam ficando mais ansiosas, opositoras e hiperativas.  “Minhas filhas têm reagido cada uma de sua forma ao isolamento. De um lado, vi a de 4 anos em alguns momentos mais apreensiva, até mesmo entristecida.  Está mais irritada e sensível. Já a mais nova não demonstra mudanças", relata o médico, pai de duas meninas, de 2 e 4 anos. 

Não é hora de minimizar medos e sentimentos, mas validá-los e conversar com a criança. "É importante explicar que a fase é passageira. Estimular o contato com outros familiares ou amigos por telefone ou videochamada, por exemplo”, aponta o psiquiatra. O médico explica que todos estes sintomas podem ser transitórios e situacionais, mas que é preciso atenção se eles começarem a comprometer a vida da garotada.  Assista ao vídeo:

E se pais e filhos nunca estiveram tão juntos, essa convivência próxima pode ser o ponto de partida para uma acolhida lúdica, com a inclusão dos pequenos no dia a dia dos pais. "Nós costumamos segmentar as coisas, separando os nossos filhos das nossas vidas. Vivemos agora uma oportunidade de integração. É um convite para integrar a família: um tempo para todos juntos, de forma lúdica", aponta a psicóloga Lívia Pires Guimarães, mestra em Educação, Cultura e Organizações Sociais. Lívia, que acumula a prática em consultório com a criação do filho, Bento, de 6 anos,  orienta na entrevista a seguir como colocar na prática a escuta e a acolhida para fazer frente ao estresse enfrentado pelas crianças.

Como identificar a causa da ansiedade? 

Na maioria das vezes a criança não fala espontaneamente, oorque ela não elabora. Ela manifesta a ansiedade por meio do comportamento. Pode ser um comportamento irritadiço, agressivo, opositor, brigas com irmãos. O adulto acha que aquele comportamento é desobediência, falta de respeito, e aí já pune. Assim, a criança fica sem espaço. Porque essa é a forma dela se posicionar,  e aí ela é reprimida por essa manifestação. A primeira coisa, então, é o adulto procurar ajudar a criança a tentar entender a causa desse comportamento. Por que ela está assim, como isso começou, o que ela tá sentindo?  É uma forma de ensinar a criança a identificar porque que ela está se sentindo dessa maneira e a encontrar outras formas de expressar. Naturalmente ela já vai se acalmando e lidando melhor com os próprios sentimentos. 

A própria família pode estar contribuindo involuntariamente para esses comportamentos?

A criança vai responder ao confinamento e à quarentena de acordo com a forma que o adulto responde. Se o adulto fica nervoso e irritado, com medo e não consegue se organizar, a criança vai captar isso e sentir muito mais. Porque se com capacidade de entender o que está acontecendo, o adulto não consegue fazer a gestão das próprias emoções, como que a gente vai esperar que uma criança que não entende a dimensão do que está acontecendo consiga? Então, adulto precisa se organizar e criar estratégias para poder regular os próprios sentimentos, não descontar na criança e não permitir que isso afete a vida infantil.

Como lidar na prática com a piora de comportamentos, como pirraça e agressividade?

A pirraça e a agressividade são formas que a criança encontra de expressar sentimentos que não são bons, que não são agradáveis de sentir, uma vez que ela não dá conta de elaborar sozinha. Vou dar um exemplo. O meu filho tem 6 anos. Depois de mais de um mês sem ir à pracinha, ele foi de máscara com o avô. Depois disso, ele ficou extremamente irritado, brigando com todo mundo, desobedecendo. Depois de muita briga e de uma tarde bem desgastante, a gente conseguiu parar para sentar, e ele se expressou. Falou que estava com raiva de Deus, porque Deus era ruim, Deus queria destruir a humanidade. Na verdade, toda a confusão da tarde se deu porque ele está sentindo falta dessa rotina com o avô. Só que a criança não dá conta de elaborar nesse nível. Se eu, como adulta, não o ajudo tentar fazer essas conexões dentro dele, eu vou ficar reduzida ao comportamento dele.  Se a gente senta e procura encontrar a raiz, resolve.

Elas sentem falta da interação com os amigos, com os familiares. Também se ressentem das atividades físicas e ao ar livre. Como compensar? 

O remédio da criança é a ludicidade.Uma ideia muito boa é a criança participar nas atividades da casa.  Ela se sente inserida no contexto familiar. E quando você chama a criança para participar, é importante chamar no contexto lúdico. Por exemplo, precisa lavar o banheiro: Toda criança adora mexer com água. Então, você pode deixar ela lavar o box , por exemplo. Colocar a ludicidade nas situações traz leveza para todo mundo e minimiza muito a falta que a criança tá sentindo da vida lá fora.